Domesticar para não ser devorado (Perdas & Ganhos)
perdaseganhos
18:28
Não é preciso consenso nem arte, nem beleza ou idade: a vida é sempre
dentro e agora. (A vida é minha para ser ousada.)
A vida pode florescer numa existência inteira. Mas tem de ser buscada,
tem de ser conquistada.
A gueixa no canto da sala
Quando anos atrás eu já refletia sobre os temas específicos deste livro,
decidi organizar grupos de mulheres para debatermos sobre a questão
Maturidade: Perdas & Ganhos. Convidei uma amiga terapeuta experiente
para participar. Mesmo que não fossem grupos terapêuticos, eu estaria
lidando, mais diretamente do que em livros e palestras, com essa
singular criatura chamada alma humana. Não queria improvisar frente a
eventuais momentos de crise. Pretendíamos reunir no máximo dez mulheres
e deixá-las trocar idéias e experiências sobre o tema do
amadurecimento. A cada encontro sugeríamos um aspecto do tema ou lhes
pedíamos sugestões. Não havia rigidez. Quem quisesse, quem se sentisse à
vontade, daria seu depoimento ou exporia suas idéias a respeito de
algum assunto. Todas podiam comentar, discutir. Hoje vamos falar de
nossos medos.
Nossos arrependimentos, nossas alegrias. Nossos sonhos e projetos. Essa
sugestão podia vir assim, direta, numa frase, ou em algum texto que
recebiam para ler. A intenção primeira era descobrir: Quem sou ou acho
que sou... quem quero ser, quem gosto de ser? Por que dispendemos tanta
energia tentando ser quem não somos, não podemos ser - quem sabe nem
temos vontade de ser? Depende também de mim? Se depende, o quanto isso
significa que gosto de mim? Quero ser feliz, saudável, amoroso, rodeado
de bons afetos ou na verdade curto ser ressentido e amargo? Esse é o
"meu jeito"? Ou se quero mudar: como mudar, como enfrentar os efeitos da
mudança? Como acontece entre mulheres, quase de imediato se formou um
clima de diálogo e cumplicidade. Algumas mais tímidas, outras
extrovertidas, mais reservadas ou expansivas, rapidamente passaram a
dirigir elas mesmas os debates, por vezes em tom confidencial, outras,
verdadeiras discussões. Lágrimas, risadas. Espanto: "Nossa! Pensei que
só eu fosse assim. Achei que ninguém tinha esse problema." Nada de
particularmente íntimo, apenas manifestações que provocaram muita
reflexão nossa aos sairmos dos encontros. Certamente aprendemos com
essas mulheres, que ali faziam o melhor que se pode fazer por si mesmo:
querer entender, querer mudar, querer ser mais feliz.
Suas idades variavam de 40 a 80 anos, a maioria na casa dos 50.
Profissionais liberais ou "donas-de-casa" de mente inquieta
indispensável para qualquer debate. Eram da geração de pioneiras que
somos todas nós: não temos padrões anteriores para imitar nem mesmo
para infringir, uma vez que o universo de nossas mães está em alguns
aspectos tão distante do nosso que não há como comparar. O mais difícil
era observar o quanto, não importava a profissão, ainda nos
valorizávamos pouco. Insegurança parecia ser a nossa marca, incerteza
quanto ao que valíamos e podíamos (não só "devíamos") fazer de nós
mesmas. Anos, décadas, séculos de preconceitos culturais ainda nos
prendiam apesar de todas as inovações. Do que estávamos precisando?
Primeiro, de discernimento. As emoções eram confusas. Havia inquietação
e descontentamento, mas a gente nem se permitia elaborar isso com mais
clareza. Um desconforto moral trouxera todas àquela sala. Como agir em
relação a ele? Era importante defini-lo melhor. Falando, como acontece -
pois dizendo o nome das coisas começamos a ter controle sobre elas -,
foram-se delimitando espaços de interrogação, clareando contornos.
Apareceram as formas do nosso mal-estar. Uma das mais importantes foi
como era imprecisa a linha entre amor e servidão. Entre generosidade e
auto-aniquilamento. Entre adaptação e automutilação. Para qualquer
mudança é necessário compreender o que há de errado em nossa relação
amorosa, em nossa casa, trabalho... em nós. Em que fomos vítimas, quanto
colaboramos para essa situação. O que posso fazer, como posso, será que posso ainda?
Uma palavra pronunciada, um texto lido podem nos fazer enxergar o que
devia ser evidente mas não é: por ser inquietante demais é melhor que
fique embaixo de todos os tapetes de nossa resignação. Íamos nos
conscientizando de que amor não deve ser servidão. De que em qualquer
idade podíamos apostar em nós. Era possível abrir novas portas e se
preciso derrubar algumas em torno e internamente. Devíamos assumir
decisões, instaurar uma nova ordem pessoal, rever contratos e firmar
acertos. Muito disso nem seria falado, mas tácito. Muito teria de ser
discutido, eventual-mente batalhado na família ou seja onde for. Era
possível uma nova maneira de existir, e isso perturbava. Houve quem
questionasse se não seria preferível tudo permanecer como estava antes
daquelas reuniões: na mornidão do cotidiano aceito e do sonho podado. "E
agora, o que é que a gente faz?", expressavam, entusiasmadas ou
assustadas. Cada uma faria ou não faria o que fosse melhor, mais
sensato, viável. Para algumas a única possibilidade seria deixar tudo
ficar como estava. Para todas, porém, nada mais seria o mesmo:
questionar o estabelecido, ainda que eventualmente não pudesse ser
modificado, era um modo de se sentirem vivas.
A questão central era sempre a relação amorosa. Com pais para algumas,
com filhos para muitas, para praticamente todas a convivência com o
parceiro. Mulheres que se desperdiçam em relações que as inibem ou
solapam seus talentos foram educadas para agradar, não para exercer
ternura, mas cumprir papéis e deveres. Base bem precária para uma
interação positiva com colegas, amigos, marido ou filhos. A mãe sempre
disponível e a mulher submissa, até o colega ou funcionário eternamente
solícito geram nos outros culpa e hostilidade. Vive-se numa dupla
solidão: a de quem se submete e de quem até sem querer subjuga.
Conviver não se torna diálogo nem parceria, mas um ftustrante monólogo
a dois. Mudar isso seria quase um milagre para muitas pessoas. Porém
residem aí possibilidades de realização nunca antes imaginadas para cada
um, ou para os dois parceiros juntos. Alterar qualquer coisa, ainda que
seja o cabelo ou o lugar habitual da mesa, é difícil. Para alguém mais
desestruturado pode ser uma batalha com muitos ferimentos de parte a
parte. Sentir-se injustiçado machuca, mas conformar-se pode ser
tentadoramente confortável: "Não há nada a fazer, comigo é assim. Meus
pais, meu marido, o destino foram carrascos. Agora é tarde." Os males
que outros nos causaram - ou nós nos causamos - são sentinelas
acusadoras diante de nossa porta. O jeito étentar assumir o controle
sobre esses espectros para que não nos manipulem. Alguns desconsertos se
arrumam com uma boa conversa, ainda que com anos de atraso, e nos
surpreenderíamos vendo quantas vezes o causador desse sofrimento nada
percebeu.
Outras marcas são inapagáveis, queimaram mesmo, nos deformaram. Para
essas é preciso bondade, doçura consigo mesmo, sabedoria e aceitação
(não usei o termo "resignação" porque não gosto dele). Muitas lamentavam
o que tinham feito ou deixado de fazer anos atrás: as escolhas erradas,
as omissões, a resignação e a subserviência. Insegurança, incertezas.
Casamentos infantis, decisões graves tomadas sem refletir, primeiras
responsabilidades sérias quando ainda se era tão imaturo. Uma deixara de
trabalhar porque vieram os filhos, e o marido não queria que ficassem
com uma babá. Outra desistira de fazer mestrado porque os filhos
reclamavam de sua ausência em casa. Outra ainda nem chegara a entrar na
universidade porque o pai queria as filhas em casa. Uma delas teria
podido fazer doutorado em outro estado, mas nem se animara a mencionar
esse desejo pois o marido "ficaria furioso". Uma confessou que não
queria filhos pois se sentia pouco maternal, seu desejo verdadeiro era
brilhar na profissão que a apaixonava mas que só agora, filhos adultos,
conseguia realmente exercer com satisfação. Então por que tivera filhos,
três na verdade? Ora, porque era o que as moças faziam, o que os maridos
e pais esperavam. Era assim. Relatando esses fatos antigos pareciam
meninas apanhadas em falta só porque tinham ousado ter tais desejos. Uma
ou outra sorriu, sacudindo a cabeça: "Meu Deus, como eu fui boba." Eram
modelos das boas e dedicadas mulheres que numa relação são - mais que
amantes/amigas - meninas submissas de modelos masculinos tão
estereotipados quanto elas. A solidão dos seus homens certamente era vasta na medida dessa
desigualdade Sugerimos que fizessem, cada uma a seu modo, uma revisão
daqueles processos. Porque tinham agido de um modo ou de outro? O que
podiam, agora, tantos anos depois, fazer a respeito? "Não posso fazer
nada, ora, reagiu uma delas, pois passou há vinte anos, acabou, não tem
jeito." A tendência é ficar arrastando esses pequenos cadáveres, os "ah,
se eu tivesse.., se ele tivesse..." Posso contornar esse fosso fingindo
que não há problema; deitar-me à sua beira, chorando; enterrar-me dentro
dele com minhas qualidades e esperanças; disfarçá- lo com folhas, ramos,
tábuas, fingindo que nada aconteceu. Tentar preencher esse saldo
negativo com alguma coisa positiva, que em cada caso será peculiar.
Indagar: por que naquele momento agi daquele modo? Foi por ignorância,
covardia, impulso de autodestruição? Na relativa lucidez da maturidade
veremos que a maior parte desses "buracos" se tornam menos funestos
quando se constata: "naquele momento, naquela circunstância, eu fiz o
melhor que podia." Quase sempre havia um motivo: os filhos pequenos,
problemas do companheiro, real dificuldade em se afastar concretamente
da casa ou da cidade, a pressão social ou familiar, havia.., nem sempre
coisas negativas. Apenas realidades com as quais se tentou lidar como
se podia àquela altura. Aos poucos enfrentavam-se velhos problemas com
mais lucidez: naquela ocasião eu fiz o melhor que podia, embora hoje, na
maturidade, veja que podia ter agido diferente. Naquela fase, imatura
ainda, eu não podia, meus pais não entendiam, meu marido não sabia.
Amadurecer serve para isso: o novo olhar, na lucidez de certo
distanciamento, permite compreender aspectos nossos e alheios antes
obscuros. Por vezes promove-se uma espécie de anistia. Partindo dela
podem-se reconfigurar padrões. Gosto de usar a palavra anistiar - melhor
que perdão, pois não tem conotação religiosa, nem dá a idéia de que
somos bonzinhos perdoando alguém. Nem a nós mesmos.
Um dia sugeri que falássemos diretamente sobre o que nos dava raiva. A
princípio ninguém se animou: todas com marido maravilhoso, filhos
ótimos, pais uns santos, proibido sentir raiva. De repente uma, que
raramente falava, começou baixinho: "E tenho raiva. Eu tenho muita
raiva." Sua raiva era da mãe inválida que a atormentava com a tirania
dos fracos, de alguns doentes e das crianças muito mimadas. Outra então
disse ter raiva dos sacrifícios que fazia pelos dois filhos adultos que
ainda moravam com ela, sempre insatisfeitos e grosseiros. Uma
censurava-se por sentir raiva do marido que não lhe dava atenção nem
importância. ("Para ele parece que eu nem existo, nem sou humana.")
Outras sentiam muita raiva de escolhas feitas na juventude, de que falei
acima. A lista foi longa e animada. Começamos a descobrir que ter raiva
(não rancor) pode ser saudável e necessário. Nunca ter raiva - não se
falava de ódio ou ressentimento - é mentir para si mesmo.
Muitos desses motivos de raiva podiam ser vistos sob outro enfoque:
submeter-se a filhos grosseiros é resultado de todo um processo, desde
o nascimento ou antes, em que a mãe precisava sentir-se vítima, a
boazinha - a sofredora. Perder as estribeiras, descer das tamancas (ou
do pedestal) pode provocar uma transformação admirável numa relação.
Certamente marido e filhos deviam sentir um misto de raiva e culpa em
relação àquela esposa-mãe-mártir. Quando as coisas parecem muito ruins,
ensinou-me uma amiga, pode-se indagar: "é tragédia ou é apenas
chateação?"
Na grande maioria das vezes é chateação. A conta atrasada, o patrão
estúpido, o colega invejoso, o filho malcriado, o marido calado, a velha
mãe descontente, cinco quilos a mais, as próprias frustrações. Chuva
demais, sol demais. Muito frio, muito calor: de repente, cada vez que
respiramos, o mundo parece acabar. Uma boa faxina nos armários do
coração traz grande alívio: botamos fora as chateações ou as deixamos de
lado por um tempo, e vamos lidar com as coisas graves. Aos poucos
descobrimos que respiramos melhor. Podemos até mesmo sonhar. A
auto-estima reduzida, companheira da insegurança e do medo, nos indicara
muitas escolhas erradas na juventude. A muitas de nós aprisionava ainda
agora num padrão fadado a causar mal-estar no ambiente familiar, e um
constante sofrimento pessoal. Se nos valorizamos pouco não só tendemos a
manter as coisas como estão (ruim o que conheço, pior o que ignoro), mas
tomamos - ou não tomamos - decisões por medo. Medo da solidão, de sermos
incapazes de decidir sozinhas, medo da opinião dos outros, medo. Quem se
subestima precisa de alguém ao lado para confirmar sua validade como
pessoa. Nessa situação não se dialoga, pois o equilíbrio da balança está
demais prejudicado. É surpreendente a dificuldade de mulheres, mesmo
competentes, para se sentirem justificadas, validadas por si sós. "Não
me sinto inteira sem um companheiro, sem poder ao menos pensar e dizer
"eu tenho alguém" disse-me uma advogada. Também nas mulheres
bem-sucedidas pessoal ou profissionalmente vive aquela que tem medo de
ficar sozinha, que viceja melhor à sombra do outro e considera sua
verdadeira vocação a de servir, de agradar, de providenciar: a gueixa.
Essa que resiste a todas as inovações e conquistas de nosso tempo.
"Homem gosta de mulher que não sabe escolher no cardápio ou finge que
não sabe e deixa ele decidir", disse-me uma jovem numa fase (passageira)
de desilusão. Mas quem sabe nós é que não somos muito boas em escolher
o companheiro, mesmo de um jantar? E quem disse que um homem com esse
gosto saberá nos valorizar, portanto será que ele nos interessaria?
Cuidado: o homem apreciador da gueixa de falinha infantil e prato
preferido dele sempre à espera pode ser másculo e prepotente, mas corre
o risco de tornar-se um eunuco - nas emoções, que ficarão muito
limitadas.
Embora a ambigüidade nossa torne tudo mais interessante pela
multiplicidade de opções e interpretações, por outro
lado nos aprisiona na gangorra da indecisão. Sofremos essa divisão entre
o "querer" fazer e o que pensamos "dever" fazer. Realizamos em nós a
frase da nossa infância, que incansavelmente ouvi: Criança não tem
querer. Permanecemos, em algumas coisas, crianças - saboreando os
privilégios e sofrendo os limites dessa condição. Quem conviver
conosco, marido ou filhos, vai carregar um fardo a mais, que o
lisonjeia ou o deixa solitário: ter ao lado a eterna menina em quem não
pode se apoiar, com quem não pode realmente partilhar a vida. Dinheiro e
instrução não nos liberam facilmente da secular lavagem cerebral da
nossa cultura. Passivamente ninguém derruba paredes limitadoras. E o
preconceito (a "cultura") nos diz que ser ativo é coisa de homem. Que
devemos ser gentis, conciliadoras, agradáveis, sedutoras, despertar no
homem sentimentos de posse e proteção, controlar constantemente os
filhos para mostrar o quanto somos dedicadas. Em suma, precisamos provar
que merecemos afeto. Somos criadas em função do hipotético príncipe
salvador que decidirá - e terá de gerir, ainda que lhe custe - o nosso
futuro. E naturalmente vai nos tratar como crianças. Seremos sempre as
despossuídas, sem espaço nem força de decisão. Seremos dos pais, depois
do marido, dos filhos, e dos netos. Para nós sobrará o canto da mesa da
sala de jantar quando quisermos escrever, o computador do filho quando
nos arriscarmos pela Internet, o sofá com as outras mulheres nos
jantares de casais. Atrás de nós, o terror do tempo que passa devorando
uma existência que nunca aprendemos a administrar - pois jamais nos
pertenceu. Pior: possivelmente nem a queríamos administrar, porque isso significaria sair da protegida resignação para
o susto das decisões. Enfrentar obstáculos e exercer enfim o tão
desejado - e temido - poder sobre nós mesmas. Quando aquele Anjo viesse
bater à nossa porta oferecendo a chance de ainda não nos levar caso
pudéssemos dar três bons motivos para isso... o que teríamos a lhe dizer
além dos pretextos habituais: "marido e filhos precisam de mim, e mas eu
ainda nem arrumei a casa", ou "preciso fazer as compras e preparar o
jantar?" Não se iludam: isto de que estou falando não acontecia só no
começo do século passado, nem ocorre, hoje, apenas entre mulheres mais
desinformadas ou simples. Embora tenha evoluído muito, a situação de
homens e mulheres - pois se falo de uma, fatalmente estou envolvendo o
outro - está em plena mutação. Muito resta a cumprir para se poder falar
em verdadeira parceria. Ela exige equilíbrio: entre servo e senhor não
existe diálogo.
Uma das queixas repetidas em nossos encontros era -nada original - não
haver diálogo com maridos e namorados. "Mas você tentou dialogar, alguma
vez tentou conversar com seu marido, seu namorado, até seu filho?" "Ah,
não adianta... homens não gostam de falar... têm dificuldade com
palavras, não têm jeito com elas... fogem da emoção.., são uns covardes.
É da natureza deles." Será mesmo?
Ou nós impedimos os nossos homens de falar porque exigimos demais,
exigimos que sejam como nós, que falem a nossa língua - se eles sempre
falarão na linguagem dos homens? Nós realmente lhes abrimos espaço ao
nosso lado, nós de verdade os estimulamos, e os escutamos, somos
parceiras - ou quando chegam em casa despejamos em cima deles uma
tonelada de queixas sobre a casa, a empregada, as crianças, o trânsito,
os preços do supermercado... como se esta, a nossa imediata, fosse a
única realidade? Não é impossível pessoas que falam idiomas diferentes
se entenderem: com mímica, expressão, olhar, entonação de voz, alma e
corpo e um gostar-se que dispensa tudo isso. Não houve apenas um desfiar
de dores e queixas, mas vivenciamos muitos momentos de riso e bom
humor. Falou-se na importância do bom-humor para conviver, para viver,
para saborear positivamente as transformações todas: "em certos momentos
não é o amor que nos salva", me dizia um amigo, "é o humor". O
bom-humor é uma qualidade atraente e uma atitude sábia. Não se trata de
sarcasmo, de divertir-se à custa dos outros, mas de rir de si mesmo na
hora certa, respeitar-se e amar-se, mas não se julgar sempre injustiçado
e agredido. Pode ser um último recurso: "Ou tento sorrir, até de mim
mesma, ou corto os pulsos", me disse alguém com razões para se
desesperar. E sorriu para mim, como quem diz: eu vou conseguir, a gente
vai conseguir, afinal vale a pena. Não posso fazer piada quando perco um
amante ou amigo, quando descubro que estou doente ou fico sem meu
emprego. Bom-humor não significa piadas: é o sorriso afetuoso, o silencio
carinhoso, o colo acolhedor aberto ao outro e para mim mesma. Nossa
evolução, as imposições do nosso grupo e cultura, nossos próprios
fantasmas, exigem muita energia, vontade e uma pitada de bom-humor para
serem domados - e não nos devorar sem cerimônia e sem compaixão.
Pretendíamos um trabalho breve só com mulheres. Mas ao fim de quase um
ano de sucessivos grupos, quando já pensávamos em suspender o trabalho
por excesso de outros compromissos, havia uma lista de dez homens que
desejaram participar. Fizemos então um último grupo, desta vez só de
homens. "Por que não misturaram?", sempre nos perguntam. Porque não
tínhamos idéia da dimensão que aquilo tomaria. De nossa vontade de
reunirmos um ou dois grupos, apenas porque eu queria tomar o pulso das
mulheres, chegamos a mais de dez. Nunca tive intenção de juntar homens e
mulheres, pois tínhamos apenas quatro encontros cada vez, e não haveria
tempo de se instalar a desejada espontaneidade. Eu estava curiosa pelo
que diriam homens sobre o assunto das perdas e ganhos do amadurecimento.
Pois o grupo masculino teve resultados comoventemente parecidos com os
das mulheres: questionavam suas escolhas, ressentiam-se do
envelhecimento, sofriam com o medo de perder a potência (também a
econômica e a autoridade), de perder a saúde e a forma física.
Aborreciam-se pois, ainda que exaustos, lhes parecia impossível parar ou reduzir o ritmo de trabalho:
mulheres e filhos dependiam demais deles. Eram onerados pela
preocupação pelos filhos e culpa por achar que haviam falhado na
família: podia ter havido mais diálogo, dedicação e tolerância. Muitos
sentiam- se isolados dentro da própria casa. O laço singular entre mãe e
filhos os deixava de fora. "Os filhos só vêm até mim para pedir
dinheiro", lamentou um deles, "quando querem amizade, contar coisas
pessoais, procuram a mãe." O não coração dos filhos, mesmo rapazes, era
um terreno onde conseguiam andar direito. Haviam-lhes ensinado, aliás
desde cedo, que no território de mãe e filhos o homem era um intruso.
"Cuidado, você vai deixar o bebê cair! Homem não tem mesmo jeito com
criança. Deixa que eu mesma cuido disso, você pode ler seu jornal, ver
seu futebol." Não são frases que fabriquei agora mas pronunciadas por
muitas de nós mesmas àqueles que mais tarde acusaríamos de serem
"distantes" dos filhos. Quem sabe agimos assim para sermos as únicas
donas daquele que julgamos nosso único verdadeiro bem, nosso "objeto"
mais pessoal, produto nosso, saído de nós - o "nosso" filho? Mulheres
levantam paredes em torno da sua relação com o filho e deixam o homem
de fora. Naturalmente passarão a vida queixando-se de que ele não se
interessava pelo bebê, não sabia o que fazer com os filhos.
A solidão dos homens me pareceu mais árida do que a das mulheres, que
têm outros tipos de laços afetivos: família, amigos, até mesmo sua casa.
"Os rapazes, meus colegas" dizia uma universitária, "quando conversam
entre si contam vantagens, falam de dinheiro, futebol, política e
mulher. Nós, as moças (algumas eram já casadas), quando nos reunimos,
trocamos confidências ou nos queixamos (das mães, das empregadas, dos
filhos, dos deveres em casa, ou... dos homens)." Entre o papo
superficial com os amigos e o receio de decepcionar ou assustar (ou
irritar?) as mulheres com sua própria fragilidade, com suas preocupações
mais íntimas ou seus dramas, os homens silenciam. Com suas mulheres
muitas vezes queixosas, obsessivamente encerradas na sua maternidade,
consumindo-se nos cuidados domésticos ou em uma excessiva futilidade,
resta-lhes o papel de provedor. A necessidade de ter alguém com quem
dialogar, com quem realmente se abrir, era quase uma constante em seus
comentários: "Com meus amigos, falo dessas coisas que homem fala:
política, futebol... com a mulher, não quero me abrir porque ela logo
fica nervosa, e me cobra mil coisas... e aos filhos, ah , esses eu
tenho de proteger, não é?" Quase sempre há coisas a melhorar, e quase
sempre podem ser melhoradas. Não é proibido questionar, esclarecer,
explicar. Não é vergonhoso realizar o sonho de estudar, de abrir uma
loja, de fazer uma viagem, de mudar de profissão. Mudar um
relacionamento. Mais fácil é a resignação: morrer antecipadamente.
Velhos casais ressentidos ou jovens casais solitários dentro de casa são
terrivelmente tristes e terrivelmente comuns. "Quando estou deprimido, levantar da cama (e não me arrastar pela casa)
já é um ato heróico", comentou alguém. Viver éum heroísmo, viver bem um
longo amor é mais heróico ainda. Viver sozinho se meu amor fracassou é
uma batalha por mera sobrevivência. Porém, só manter a cabeça à tona
d'água num casamento, é suficiente? Um amigo disse no aniversário de sua
mulher uma das coisas mais bonitas que ouvi: "Todos os dias de nosso
casamento (de uns 40 anos), eu te escolhi de novo como minha mulher." O
casal mais feliz haveria de ser aquele que não desiste de correr atrás
do sonho de que, apesar dos pesares, a gente a cada dia se olharia como
da primeira vez, se enxergaria - e se escolheria novamente.
Um dia me pediram para escrever sobre "o casal perfeito": bom para quem
gosta de desafios. Minha primeira providência foi cercar com aspas o
vocábulo "perfeito". O que justificaria o rótulo sobre o qual eu devia
escrever? Imediatamente ocorreu-me que parceiros de um casal "perfeito"
precisam se querer bem como se querem bem os bons amigos, e temperar
esse afeto com a sensualidade que distingue amizade de amor. Duas
pessoas que compreendem, sem ressentimento nem cobranças, a inevitável
dose de peculiaridades do ser humano e sua dificuldade de comunicação.
Em última análise, toda a sua complicação. A melhor parceria deve ser
aquela em que um aceita o outro sem ter de se submeter a qualquer coisa
pelo outro; em que um aprecia e admira o outro, mas tem por ele ternura e cuidados.
Sobretudo aquela em que um parceiro não investe no outro todos os seus
projetos, à primeira decepção passando de amor a rancor. Se o outro
servir de cabide para os nossos sonhos mais extravagantes de perfeição,
o primeiro vento contrário derruba o pobre ídolo que não tem culpa de
nada. No casamento saudável, há um propósito geral: quero passar com
você o melhor de meus dias, construir com você uma relação gostosa,
importante e definitiva. É importante não correr para os braços do outro
fugindo da chatice da família, da mesmice da solidão, do tédio. E
essencial não se lançar no pescoço do outro caindo na armadilha do
"enfim nunca mais só!", porque numa união com expectativas exageradas
decreta-se o começo do exílio. Amor bom, além do mais, tem de suportar e
superar a convivência diária. A conta a pagar, a empregada que não veio,
o filho doente, a filha complicada, a mãe com Alzheimer, o pai
deprimido, ou o emprego sem graça e o patrão grosseiro. Quando cai
aquela última gota - pode ser uma trivialíssima gota -, a gente explode.
Quer matar e morrer, e nos damos conta: nada mais em nossa relação é
como era no começo. Não é nem de longe como planejávamos que fosse. Não
queremos continuar assim, mas não sabemos o que fazer. Ou sabemos, mas
nos parece inexeqüível. Na verdade, na parceria amorosa como em tudo o
mais recomeçamos tudo todos os dias. Então podemos tentar começar
diferentes também aqui e agora. O cotidiano conforta, os seus pequenos
rituais são os marcos de nossa vida mais segura, mas também traz
desencanto e monotonia.
Precisamos de criatividade num relacionamento amoroso, dizem. O problema
é que quando se fala em "criatividade" numa relação a maioria pensa logo
em inovações no sexo, como se a solução estivesse em novas posições,
outro perfume, artifícios exóticos. Transar bem é resultado, não meio.
Como deveriam ser os filhos: fruto de um afeto vivo, não instrumento
para consertar o que está falido. Passada a primeira fase de paixão
(desculpem mas ela passa, o que não significa tédio nem fim de tesão), a
gente começa a amar de outro jeito. Ou a amar melhor; ou: aí é que a
gente começa a amar; a querer bem; a apreciar; a respeitar; a valorizar;
a mimar; a sentir falta; a conceder espaço; a querer que o outro cresça
e não fique grudado na gente. "Se você ama alguém, deixe-o livre",
estava escrito no bilhetinho que foi um dos maiores presentes que me deu
alguém entre tantos muitos outros bens. Um pouco de lucidez e um bocado
de maturidade (ah, que boa coisa, o tempo) há de mostrar se - e o quê -
pode ser ainda conquistado a dois. Isso entendido, chega o momento da
definição: e agora, o que fazer? Investir, se há mais possibilidades do
que vazio. Como a gente não desiste fácil - porque afinal somos
guerreiros ou nem estaríamos mais aqui, e porque há os filhos, os
compromissos, a casa, a grana e até ainda o afeto -"vamos criar um
jeito de reconstruir o que parece esfarelado. Isto é: quando há vontade,
afeto, quando resta interesse. Desde que seja uma reinvenção a dois, não
a submissão de um e o exílio de outro. Pois o espaço entre opressor e
oprimido é um vazio. Mas e quando realmente nada mais resta de positivo?
Laços podem ser reconstituídos, remendados ou cortados. O corte se faz
com mais ou menos generosidade, carinho ou hostilidade e raiva - sempre
com dor. Porém nenhuma união deveria ser a sentença definitiva de
aniquilamento mútuo dentro de uma jaula.
Como invento histórias, gosto de fábulas. Trabalho com elas, pois são o
espelho da realidade. E porque gosto de histórias de anjos, aqui vai
mais uma. Esta fala de amor, de parceria no amor, de encontrar quem
possa ser nosso cúmplice, muito além e acima de convenções, receitas e
"modas". Era um homem, um homem comum, que um comum destino parecia
controlar inteiramente. Um animal doméstico bem treinado. Um dia sentiu
um incômodo nos dois ombros, distensão muscular, má posição no
trabalho... Foi piorando e resolveu olhar-se no espelho, de lado,
inteiro e nu depois do banho: não havia dúvida, duas saliências oblíquas
apareciam em sua pele abaixo dos ombros. Teve medo mas decidiu não
comentar com ninguém, e como não transava freqüentemente com a mulher,
conseguiu esconder tudo quase um mes. Fez como via fazer sua mulher:
pegou de cima da pia um espelho redondo no qual ela ajeitava o cabelo, e
passou a analisar todo dia aquele fenômeno que, em vez de o assustar,
agora o intrigava. Curioso mas sem sofrer - pois não doía -, foi
observando aquilo crescer. E pensava: Nem adianta ir ao médico, porque se for um tumor (ou dois) tão grande,
não tem mais remédio, é melhor morrer inteiro do que cortado. Certa
vez, quando se masturbava no banheiro, na hora do prazer sentiu que elas
enfim se lançavam de suas costas, e viu-se enfeitado com elas,
desdobradas como as asas de um cisne que apenas tivesse dormido e,
acordando, se espojasse sobre as águas. Ficou ali, nu diante do
espelho, estarrecido. tora ele não era apenas um homem comum com contas
a pagar, emprego a cumprir, família a sustentar, filhos a levar para o
parque, horários a cumprir: era um homem com um encantamento. Eram umas
asas muito práticas aquelas, porque desde que usasse camisa um pouco
larga acomodavam-se maravilhosamente debaixo das roupas. Em Certas
noites, quando todos dormiam, ele saía para o terraço, tirava a roupa e
varava os ares. Sua mulher notou alguma coisa diferente no corpo de seu
marido. Estava ficando curvado, tantas horas na mesa de trabalho. Nada
mais que isso. Embora a mãe lhe tivesse dito que "com homem é sempre
melhor confiar desconfiando", daquele seu homem pacato ela jamais
imaginaria nada muito singular. - Você vai acabar corcunda desse jeito,
aprume-se - ela dizia no seu tom de desaprovação conjugal. As coisas se
complicaram quando, já habituado à sua nova condição, o homem-anjo olhou
em torno e, sendo ainda apenas um homem com asas, sentiu-se muito só. E
começou a pensar nisso. E olhou em torno e se apaixonou. Na primeira
noite com sua amante, esqueceu o problema, tirou a roupa toda, e quando
ela começava a apalpar- lhe as costas o par de asas se abriu, arqueou-se
unindo as pontas bem no alto por cima dele, na hora do supremo prazer.
Mas essa mulher/amante não se assustou, não se afastou. Apertou-se mais
a ele, e dizia: vem comigo, vem comigo, vem comigo... E abriu suas asas
também. (Histórias do tempo, 2000)
Amor é tarefa complexa além de tudo porque para amar preciso primeiro me
amar. Dentro e fora são reflexos mútuos, como dois espelhos em lados
opostos. Vou procurar um amor bom para mim - no qual me reconheço e me
reencontro, me refaço e me amplio, me exploro, me descubro - se minha
imagem interior me levar a isso. O amor mais que tudo nos revela:
manifesta nossas tendências, o que preferimos e escolhemos para nós.
Quero, mereço ser e fazer feliz ou preciso me punir e castigar ao outro;
mereço e posso crescer ou me aniquilar.., e ao outro comigo? "Escolha"
amorosa pode parecer contradição. Antigamente falava-se em "escolher
marido, escolher esposa". Sempre tive quanto a isso grandes reservas.
Hoje penso que é uma escolha, sim, mas não aquela a que tais conselhos
se referiam: trate de escolher bem seu marido, sua mulher. A idéia,
explícita ou não, era: que o marido te dê segurança econômica, que a
mulher seja virtuosa e cuide bem da casa e dos filhos. Isso fala de
arranjos e conveniências, de modelos rígidos impostos de fora. Amor é
outro tipo de escolha. O homem com asas deparou com sua amante alada,
aparentemente por acaso: foi na verdade sua escolha mais vital de uma
parceria. Esse encontro se dá no escuro do desconhecimento mútuo. É em parte consciente, segundo nosso agrado e necessidades, o
projeto que tínhamos, o modelo que queremos. Mas é bastante
inconsciente, brota dos impulsos mais primários daquele nosso eu
dissimulado sob muitas máscaras. Essa é a opção mais grave: nasce de
toda a perspectiva interior. Na escolha do parceiro opto pelo que julgo
merecer. E aí é que podemos apunhalar o próprio peito. Escolho conforme
minha saúde emocional ou minha doença, meus desejos mais obscuros, meus
movimentos inconscientes em direção de afirmação ou destruição. Nosso
lado mais oculto sente, fareja: aqui devo investir minha emoção, aqui
conseguirei me doar, aqui há alguém com quem posso pensar em construir
um relacionamento.
No amor pensamos viver finalmente o mito da fusão com o outro. Queremos
perder a identidade nas mãos daquele que de momento é "tudo" para nós. A
paixão inicial quer ver e mostrar. É compulsão de nos abrirmos com o
outro e mergulharmos nele, revelando os menores detalhes de nosso corpo
e alma, incansáveis relatos do passado, trocas que parecem levar à
sonhada união total. Sabemos cada momento do seu horário, com quem fala,
onde esteve e pretende ou sonharia estar a tal e tal hora -maneira de
estarmos sempre juntos, confirmação de afeto e interesse. Porém uma
ligação amorosa é uma longa elaboração: enfrenta toda uma série de
transformações de parte a parte. Mudamos e os parceiros não mudam
necessariamente no mesmo ritmo, com a mesma intensidade ou no mesmo
sentido.
O instinto e o afeto é que fazem com que os bons casais, os casais
amorosos, usem dessas fases de crise para se renovar e crescer, se
possível juntos. Desde que o instinto seja saudável, o afeto seja bom, a
personalidade aberta. Não há receita. Não há escola. Não há manual. Um
dos parceiros fatalmente envelhece antes, adoece mais. Pode ter reveses
financeiros, pode ter fracassos profissionais. Pode evoluir com a idade
e as circunstâncias, ou ficar atrás em relação ao outro. Instala-se
entre ambos o jogo de poder em que o mais fraco tiraniza aquele que (nem
sempre as mulheres) se submeteu mais, abdicou de mais coisas. Sendo
vulneráveis e culpados essenciais, aquele que está em vantagem (o que
quer que isso signifique) pode ceder a chantagens, podar suas asas e
truncar seu destino para não "humilhar" o parceiro. Se for mulher, mais
complexo o drama. Porque é convenção nossa (quem sabe ainda legado
primitivo das cavernas) que o homem seja o forte e a mulher a frágil, o
homem o dono do dinheiro (= poder) e a mulher a que vive de mesada.
Conheço mulheres de sucesso que a cada fim de mês entregam o dinheiro
para que o marido o administre, porque se sentem incapazes, ou pior:
temem que serem capazes deixe o marido inseguro e agressivo. Uma terapia
dos dois, ou a dois, de um deles ao menos, um aconselhamento que seja,
pode ser uma excelente ferramenta. Férias longe de trabalho e filhos,
oportunidade de reencontro e conversas honestas. Mas freqüentemente
aquele que poderia dar o passo decisivo e consertar sua vida - mesmo
dentro dessa relação - não se permite isso. A culpa não deixa. O medo de perder o parceiro não permite. O receio da solidão, pior ainda. Tudo fica como está: por baixo das aparências corre o rio turvo do lento e tácito suicídio a dois, físico ou moral. É a morte das
alegrias e da ternura, um acordo fatal no qual a esperança fica
revogada. A culpa, disse alguém, é como uma mala cheia de tijolos, peso
inútil que carregamos de um lado para outro sem objetivo algum. Haveria
só uma solução: jogá-la fora inteira ou ao menos parte dela. Mas regras
auto-impostas, acordos nunca verbalizados, ajustes aparentemente
necessários para evitar um conflito que poderia ser salutar - nem falo
da guerra surda que se desenrola tão seguidamente entre casais -, ou
comodismo, nos impedem de agir. Levantam aquelas intransponíveis
colunas de Hércules que serão derrubadas algum momento mais tarde com
violência e dor, ou serão o monumento em honra de duas existências
boicotadas.
Escrevendo sobre amor não posso falar apenas de mulheres submissas.
Conheço maridos tão controlados pela parceira que não sobra espaço para
novas amizades, nem para simples troca de idéias e estímulos - ainda
mais se for com outra mulher. Numa casa que freqüentei em mocinha, o
marido e os filhos homens ao chegar na porta de entrada precisavam
tirar os sapatos: havia chinelos à espera dos pobres. "Não entrem na
minha casa com seus sapatos sujos!", esbravejava o general de saias que
comandava, mais que uma casa, uma jaula.
A personalidade esmagada sonha com uma saída. Eventualmente, se ela
aparece e é mais atraente, ocorre uma ruptura sob o infalível comentário
de quem está de fora: "Mas, como? Pareciam se dar tão bem!" Aqui vale um
PS: a atração fora do laço de uma união que se tornou mortal não precisa
ser "outra pessoa", mas uma oportunidade de crescer, de viajar, de
estudar, de sair do emprego, de travar nova amizade. Poder ser alegre,
poder respirar. Poder confiar. Não se sentir fiscalizado ou ignorado.
Mas a gente pode optar por deixar tudo como está: é assim. Às vezes
realmente não há maneira de escapar. Nesse caso, se aquele anjo da
sombra ou da luz batesse àporta, não saberíamos dar nem ao menos uma boa
razão, só nossa, para que ele não nos levasse, encerrando algo que na
verdade já estava cancelado.
dentro e agora. (A vida é minha para ser ousada.)
A vida pode florescer numa existência inteira. Mas tem de ser buscada,
tem de ser conquistada.
A gueixa no canto da sala
Quando anos atrás eu já refletia sobre os temas específicos deste livro,
decidi organizar grupos de mulheres para debatermos sobre a questão
Maturidade: Perdas & Ganhos. Convidei uma amiga terapeuta experiente
para participar. Mesmo que não fossem grupos terapêuticos, eu estaria
lidando, mais diretamente do que em livros e palestras, com essa
singular criatura chamada alma humana. Não queria improvisar frente a
eventuais momentos de crise. Pretendíamos reunir no máximo dez mulheres
e deixá-las trocar idéias e experiências sobre o tema do
amadurecimento. A cada encontro sugeríamos um aspecto do tema ou lhes
pedíamos sugestões. Não havia rigidez. Quem quisesse, quem se sentisse à
vontade, daria seu depoimento ou exporia suas idéias a respeito de
algum assunto. Todas podiam comentar, discutir. Hoje vamos falar de
nossos medos.
Nossos arrependimentos, nossas alegrias. Nossos sonhos e projetos. Essa
sugestão podia vir assim, direta, numa frase, ou em algum texto que
recebiam para ler. A intenção primeira era descobrir: Quem sou ou acho
que sou... quem quero ser, quem gosto de ser? Por que dispendemos tanta
energia tentando ser quem não somos, não podemos ser - quem sabe nem
temos vontade de ser? Depende também de mim? Se depende, o quanto isso
significa que gosto de mim? Quero ser feliz, saudável, amoroso, rodeado
de bons afetos ou na verdade curto ser ressentido e amargo? Esse é o
"meu jeito"? Ou se quero mudar: como mudar, como enfrentar os efeitos da
mudança? Como acontece entre mulheres, quase de imediato se formou um
clima de diálogo e cumplicidade. Algumas mais tímidas, outras
extrovertidas, mais reservadas ou expansivas, rapidamente passaram a
dirigir elas mesmas os debates, por vezes em tom confidencial, outras,
verdadeiras discussões. Lágrimas, risadas. Espanto: "Nossa! Pensei que
só eu fosse assim. Achei que ninguém tinha esse problema." Nada de
particularmente íntimo, apenas manifestações que provocaram muita
reflexão nossa aos sairmos dos encontros. Certamente aprendemos com
essas mulheres, que ali faziam o melhor que se pode fazer por si mesmo:
querer entender, querer mudar, querer ser mais feliz.
Suas idades variavam de 40 a 80 anos, a maioria na casa dos 50.
Profissionais liberais ou "donas-de-casa" de mente inquieta
indispensável para qualquer debate. Eram da geração de pioneiras que
somos todas nós: não temos padrões anteriores para imitar nem mesmo
para infringir, uma vez que o universo de nossas mães está em alguns
aspectos tão distante do nosso que não há como comparar. O mais difícil
era observar o quanto, não importava a profissão, ainda nos
valorizávamos pouco. Insegurança parecia ser a nossa marca, incerteza
quanto ao que valíamos e podíamos (não só "devíamos") fazer de nós
mesmas. Anos, décadas, séculos de preconceitos culturais ainda nos
prendiam apesar de todas as inovações. Do que estávamos precisando?
Primeiro, de discernimento. As emoções eram confusas. Havia inquietação
e descontentamento, mas a gente nem se permitia elaborar isso com mais
clareza. Um desconforto moral trouxera todas àquela sala. Como agir em
relação a ele? Era importante defini-lo melhor. Falando, como acontece -
pois dizendo o nome das coisas começamos a ter controle sobre elas -,
foram-se delimitando espaços de interrogação, clareando contornos.
Apareceram as formas do nosso mal-estar. Uma das mais importantes foi
como era imprecisa a linha entre amor e servidão. Entre generosidade e
auto-aniquilamento. Entre adaptação e automutilação. Para qualquer
mudança é necessário compreender o que há de errado em nossa relação
amorosa, em nossa casa, trabalho... em nós. Em que fomos vítimas, quanto
colaboramos para essa situação. O que posso fazer, como posso, será que posso ainda?
Uma palavra pronunciada, um texto lido podem nos fazer enxergar o que
devia ser evidente mas não é: por ser inquietante demais é melhor que
fique embaixo de todos os tapetes de nossa resignação. Íamos nos
conscientizando de que amor não deve ser servidão. De que em qualquer
idade podíamos apostar em nós. Era possível abrir novas portas e se
preciso derrubar algumas em torno e internamente. Devíamos assumir
decisões, instaurar uma nova ordem pessoal, rever contratos e firmar
acertos. Muito disso nem seria falado, mas tácito. Muito teria de ser
discutido, eventual-mente batalhado na família ou seja onde for. Era
possível uma nova maneira de existir, e isso perturbava. Houve quem
questionasse se não seria preferível tudo permanecer como estava antes
daquelas reuniões: na mornidão do cotidiano aceito e do sonho podado. "E
agora, o que é que a gente faz?", expressavam, entusiasmadas ou
assustadas. Cada uma faria ou não faria o que fosse melhor, mais
sensato, viável. Para algumas a única possibilidade seria deixar tudo
ficar como estava. Para todas, porém, nada mais seria o mesmo:
questionar o estabelecido, ainda que eventualmente não pudesse ser
modificado, era um modo de se sentirem vivas.
A questão central era sempre a relação amorosa. Com pais para algumas,
com filhos para muitas, para praticamente todas a convivência com o
parceiro. Mulheres que se desperdiçam em relações que as inibem ou
solapam seus talentos foram educadas para agradar, não para exercer
ternura, mas cumprir papéis e deveres. Base bem precária para uma
interação positiva com colegas, amigos, marido ou filhos. A mãe sempre
disponível e a mulher submissa, até o colega ou funcionário eternamente
solícito geram nos outros culpa e hostilidade. Vive-se numa dupla
solidão: a de quem se submete e de quem até sem querer subjuga.
Conviver não se torna diálogo nem parceria, mas um ftustrante monólogo
a dois. Mudar isso seria quase um milagre para muitas pessoas. Porém
residem aí possibilidades de realização nunca antes imaginadas para cada
um, ou para os dois parceiros juntos. Alterar qualquer coisa, ainda que
seja o cabelo ou o lugar habitual da mesa, é difícil. Para alguém mais
desestruturado pode ser uma batalha com muitos ferimentos de parte a
parte. Sentir-se injustiçado machuca, mas conformar-se pode ser
tentadoramente confortável: "Não há nada a fazer, comigo é assim. Meus
pais, meu marido, o destino foram carrascos. Agora é tarde." Os males
que outros nos causaram - ou nós nos causamos - são sentinelas
acusadoras diante de nossa porta. O jeito étentar assumir o controle
sobre esses espectros para que não nos manipulem. Alguns desconsertos se
arrumam com uma boa conversa, ainda que com anos de atraso, e nos
surpreenderíamos vendo quantas vezes o causador desse sofrimento nada
percebeu.
Outras marcas são inapagáveis, queimaram mesmo, nos deformaram. Para
essas é preciso bondade, doçura consigo mesmo, sabedoria e aceitação
(não usei o termo "resignação" porque não gosto dele). Muitas lamentavam
o que tinham feito ou deixado de fazer anos atrás: as escolhas erradas,
as omissões, a resignação e a subserviência. Insegurança, incertezas.
Casamentos infantis, decisões graves tomadas sem refletir, primeiras
responsabilidades sérias quando ainda se era tão imaturo. Uma deixara de
trabalhar porque vieram os filhos, e o marido não queria que ficassem
com uma babá. Outra desistira de fazer mestrado porque os filhos
reclamavam de sua ausência em casa. Outra ainda nem chegara a entrar na
universidade porque o pai queria as filhas em casa. Uma delas teria
podido fazer doutorado em outro estado, mas nem se animara a mencionar
esse desejo pois o marido "ficaria furioso". Uma confessou que não
queria filhos pois se sentia pouco maternal, seu desejo verdadeiro era
brilhar na profissão que a apaixonava mas que só agora, filhos adultos,
conseguia realmente exercer com satisfação. Então por que tivera filhos,
três na verdade? Ora, porque era o que as moças faziam, o que os maridos
e pais esperavam. Era assim. Relatando esses fatos antigos pareciam
meninas apanhadas em falta só porque tinham ousado ter tais desejos. Uma
ou outra sorriu, sacudindo a cabeça: "Meu Deus, como eu fui boba." Eram
modelos das boas e dedicadas mulheres que numa relação são - mais que
amantes/amigas - meninas submissas de modelos masculinos tão
estereotipados quanto elas. A solidão dos seus homens certamente era vasta na medida dessa
desigualdade Sugerimos que fizessem, cada uma a seu modo, uma revisão
daqueles processos. Porque tinham agido de um modo ou de outro? O que
podiam, agora, tantos anos depois, fazer a respeito? "Não posso fazer
nada, ora, reagiu uma delas, pois passou há vinte anos, acabou, não tem
jeito." A tendência é ficar arrastando esses pequenos cadáveres, os "ah,
se eu tivesse.., se ele tivesse..." Posso contornar esse fosso fingindo
que não há problema; deitar-me à sua beira, chorando; enterrar-me dentro
dele com minhas qualidades e esperanças; disfarçá- lo com folhas, ramos,
tábuas, fingindo que nada aconteceu. Tentar preencher esse saldo
negativo com alguma coisa positiva, que em cada caso será peculiar.
Indagar: por que naquele momento agi daquele modo? Foi por ignorância,
covardia, impulso de autodestruição? Na relativa lucidez da maturidade
veremos que a maior parte desses "buracos" se tornam menos funestos
quando se constata: "naquele momento, naquela circunstância, eu fiz o
melhor que podia." Quase sempre havia um motivo: os filhos pequenos,
problemas do companheiro, real dificuldade em se afastar concretamente
da casa ou da cidade, a pressão social ou familiar, havia.., nem sempre
coisas negativas. Apenas realidades com as quais se tentou lidar como
se podia àquela altura. Aos poucos enfrentavam-se velhos problemas com
mais lucidez: naquela ocasião eu fiz o melhor que podia, embora hoje, na
maturidade, veja que podia ter agido diferente. Naquela fase, imatura
ainda, eu não podia, meus pais não entendiam, meu marido não sabia.
Amadurecer serve para isso: o novo olhar, na lucidez de certo
distanciamento, permite compreender aspectos nossos e alheios antes
obscuros. Por vezes promove-se uma espécie de anistia. Partindo dela
podem-se reconfigurar padrões. Gosto de usar a palavra anistiar - melhor
que perdão, pois não tem conotação religiosa, nem dá a idéia de que
somos bonzinhos perdoando alguém. Nem a nós mesmos.
Um dia sugeri que falássemos diretamente sobre o que nos dava raiva. A
princípio ninguém se animou: todas com marido maravilhoso, filhos
ótimos, pais uns santos, proibido sentir raiva. De repente uma, que
raramente falava, começou baixinho: "E tenho raiva. Eu tenho muita
raiva." Sua raiva era da mãe inválida que a atormentava com a tirania
dos fracos, de alguns doentes e das crianças muito mimadas. Outra então
disse ter raiva dos sacrifícios que fazia pelos dois filhos adultos que
ainda moravam com ela, sempre insatisfeitos e grosseiros. Uma
censurava-se por sentir raiva do marido que não lhe dava atenção nem
importância. ("Para ele parece que eu nem existo, nem sou humana.")
Outras sentiam muita raiva de escolhas feitas na juventude, de que falei
acima. A lista foi longa e animada. Começamos a descobrir que ter raiva
(não rancor) pode ser saudável e necessário. Nunca ter raiva - não se
falava de ódio ou ressentimento - é mentir para si mesmo.
Muitos desses motivos de raiva podiam ser vistos sob outro enfoque:
submeter-se a filhos grosseiros é resultado de todo um processo, desde
o nascimento ou antes, em que a mãe precisava sentir-se vítima, a
boazinha - a sofredora. Perder as estribeiras, descer das tamancas (ou
do pedestal) pode provocar uma transformação admirável numa relação.
Certamente marido e filhos deviam sentir um misto de raiva e culpa em
relação àquela esposa-mãe-mártir. Quando as coisas parecem muito ruins,
ensinou-me uma amiga, pode-se indagar: "é tragédia ou é apenas
chateação?"
Na grande maioria das vezes é chateação. A conta atrasada, o patrão
estúpido, o colega invejoso, o filho malcriado, o marido calado, a velha
mãe descontente, cinco quilos a mais, as próprias frustrações. Chuva
demais, sol demais. Muito frio, muito calor: de repente, cada vez que
respiramos, o mundo parece acabar. Uma boa faxina nos armários do
coração traz grande alívio: botamos fora as chateações ou as deixamos de
lado por um tempo, e vamos lidar com as coisas graves. Aos poucos
descobrimos que respiramos melhor. Podemos até mesmo sonhar. A
auto-estima reduzida, companheira da insegurança e do medo, nos indicara
muitas escolhas erradas na juventude. A muitas de nós aprisionava ainda
agora num padrão fadado a causar mal-estar no ambiente familiar, e um
constante sofrimento pessoal. Se nos valorizamos pouco não só tendemos a
manter as coisas como estão (ruim o que conheço, pior o que ignoro), mas
tomamos - ou não tomamos - decisões por medo. Medo da solidão, de sermos
incapazes de decidir sozinhas, medo da opinião dos outros, medo. Quem se
subestima precisa de alguém ao lado para confirmar sua validade como
pessoa. Nessa situação não se dialoga, pois o equilíbrio da balança está
demais prejudicado. É surpreendente a dificuldade de mulheres, mesmo
competentes, para se sentirem justificadas, validadas por si sós. "Não
me sinto inteira sem um companheiro, sem poder ao menos pensar e dizer
"eu tenho alguém" disse-me uma advogada. Também nas mulheres
bem-sucedidas pessoal ou profissionalmente vive aquela que tem medo de
ficar sozinha, que viceja melhor à sombra do outro e considera sua
verdadeira vocação a de servir, de agradar, de providenciar: a gueixa.
Essa que resiste a todas as inovações e conquistas de nosso tempo.
"Homem gosta de mulher que não sabe escolher no cardápio ou finge que
não sabe e deixa ele decidir", disse-me uma jovem numa fase (passageira)
de desilusão. Mas quem sabe nós é que não somos muito boas em escolher
o companheiro, mesmo de um jantar? E quem disse que um homem com esse
gosto saberá nos valorizar, portanto será que ele nos interessaria?
Cuidado: o homem apreciador da gueixa de falinha infantil e prato
preferido dele sempre à espera pode ser másculo e prepotente, mas corre
o risco de tornar-se um eunuco - nas emoções, que ficarão muito
limitadas.
Embora a ambigüidade nossa torne tudo mais interessante pela
multiplicidade de opções e interpretações, por outro
lado nos aprisiona na gangorra da indecisão. Sofremos essa divisão entre
o "querer" fazer e o que pensamos "dever" fazer. Realizamos em nós a
frase da nossa infância, que incansavelmente ouvi: Criança não tem
querer. Permanecemos, em algumas coisas, crianças - saboreando os
privilégios e sofrendo os limites dessa condição. Quem conviver
conosco, marido ou filhos, vai carregar um fardo a mais, que o
lisonjeia ou o deixa solitário: ter ao lado a eterna menina em quem não
pode se apoiar, com quem não pode realmente partilhar a vida. Dinheiro e
instrução não nos liberam facilmente da secular lavagem cerebral da
nossa cultura. Passivamente ninguém derruba paredes limitadoras. E o
preconceito (a "cultura") nos diz que ser ativo é coisa de homem. Que
devemos ser gentis, conciliadoras, agradáveis, sedutoras, despertar no
homem sentimentos de posse e proteção, controlar constantemente os
filhos para mostrar o quanto somos dedicadas. Em suma, precisamos provar
que merecemos afeto. Somos criadas em função do hipotético príncipe
salvador que decidirá - e terá de gerir, ainda que lhe custe - o nosso
futuro. E naturalmente vai nos tratar como crianças. Seremos sempre as
despossuídas, sem espaço nem força de decisão. Seremos dos pais, depois
do marido, dos filhos, e dos netos. Para nós sobrará o canto da mesa da
sala de jantar quando quisermos escrever, o computador do filho quando
nos arriscarmos pela Internet, o sofá com as outras mulheres nos
jantares de casais. Atrás de nós, o terror do tempo que passa devorando
uma existência que nunca aprendemos a administrar - pois jamais nos
pertenceu. Pior: possivelmente nem a queríamos administrar, porque isso significaria sair da protegida resignação para
o susto das decisões. Enfrentar obstáculos e exercer enfim o tão
desejado - e temido - poder sobre nós mesmas. Quando aquele Anjo viesse
bater à nossa porta oferecendo a chance de ainda não nos levar caso
pudéssemos dar três bons motivos para isso... o que teríamos a lhe dizer
além dos pretextos habituais: "marido e filhos precisam de mim, e mas eu
ainda nem arrumei a casa", ou "preciso fazer as compras e preparar o
jantar?" Não se iludam: isto de que estou falando não acontecia só no
começo do século passado, nem ocorre, hoje, apenas entre mulheres mais
desinformadas ou simples. Embora tenha evoluído muito, a situação de
homens e mulheres - pois se falo de uma, fatalmente estou envolvendo o
outro - está em plena mutação. Muito resta a cumprir para se poder falar
em verdadeira parceria. Ela exige equilíbrio: entre servo e senhor não
existe diálogo.
Uma das queixas repetidas em nossos encontros era -nada original - não
haver diálogo com maridos e namorados. "Mas você tentou dialogar, alguma
vez tentou conversar com seu marido, seu namorado, até seu filho?" "Ah,
não adianta... homens não gostam de falar... têm dificuldade com
palavras, não têm jeito com elas... fogem da emoção.., são uns covardes.
É da natureza deles." Será mesmo?
Ou nós impedimos os nossos homens de falar porque exigimos demais,
exigimos que sejam como nós, que falem a nossa língua - se eles sempre
falarão na linguagem dos homens? Nós realmente lhes abrimos espaço ao
nosso lado, nós de verdade os estimulamos, e os escutamos, somos
parceiras - ou quando chegam em casa despejamos em cima deles uma
tonelada de queixas sobre a casa, a empregada, as crianças, o trânsito,
os preços do supermercado... como se esta, a nossa imediata, fosse a
única realidade? Não é impossível pessoas que falam idiomas diferentes
se entenderem: com mímica, expressão, olhar, entonação de voz, alma e
corpo e um gostar-se que dispensa tudo isso. Não houve apenas um desfiar
de dores e queixas, mas vivenciamos muitos momentos de riso e bom
humor. Falou-se na importância do bom-humor para conviver, para viver,
para saborear positivamente as transformações todas: "em certos momentos
não é o amor que nos salva", me dizia um amigo, "é o humor". O
bom-humor é uma qualidade atraente e uma atitude sábia. Não se trata de
sarcasmo, de divertir-se à custa dos outros, mas de rir de si mesmo na
hora certa, respeitar-se e amar-se, mas não se julgar sempre injustiçado
e agredido. Pode ser um último recurso: "Ou tento sorrir, até de mim
mesma, ou corto os pulsos", me disse alguém com razões para se
desesperar. E sorriu para mim, como quem diz: eu vou conseguir, a gente
vai conseguir, afinal vale a pena. Não posso fazer piada quando perco um
amante ou amigo, quando descubro que estou doente ou fico sem meu
emprego. Bom-humor não significa piadas: é o sorriso afetuoso, o silencio
carinhoso, o colo acolhedor aberto ao outro e para mim mesma. Nossa
evolução, as imposições do nosso grupo e cultura, nossos próprios
fantasmas, exigem muita energia, vontade e uma pitada de bom-humor para
serem domados - e não nos devorar sem cerimônia e sem compaixão.
Pretendíamos um trabalho breve só com mulheres. Mas ao fim de quase um
ano de sucessivos grupos, quando já pensávamos em suspender o trabalho
por excesso de outros compromissos, havia uma lista de dez homens que
desejaram participar. Fizemos então um último grupo, desta vez só de
homens. "Por que não misturaram?", sempre nos perguntam. Porque não
tínhamos idéia da dimensão que aquilo tomaria. De nossa vontade de
reunirmos um ou dois grupos, apenas porque eu queria tomar o pulso das
mulheres, chegamos a mais de dez. Nunca tive intenção de juntar homens e
mulheres, pois tínhamos apenas quatro encontros cada vez, e não haveria
tempo de se instalar a desejada espontaneidade. Eu estava curiosa pelo
que diriam homens sobre o assunto das perdas e ganhos do amadurecimento.
Pois o grupo masculino teve resultados comoventemente parecidos com os
das mulheres: questionavam suas escolhas, ressentiam-se do
envelhecimento, sofriam com o medo de perder a potência (também a
econômica e a autoridade), de perder a saúde e a forma física.
Aborreciam-se pois, ainda que exaustos, lhes parecia impossível parar ou reduzir o ritmo de trabalho:
mulheres e filhos dependiam demais deles. Eram onerados pela
preocupação pelos filhos e culpa por achar que haviam falhado na
família: podia ter havido mais diálogo, dedicação e tolerância. Muitos
sentiam- se isolados dentro da própria casa. O laço singular entre mãe e
filhos os deixava de fora. "Os filhos só vêm até mim para pedir
dinheiro", lamentou um deles, "quando querem amizade, contar coisas
pessoais, procuram a mãe." O não coração dos filhos, mesmo rapazes, era
um terreno onde conseguiam andar direito. Haviam-lhes ensinado, aliás
desde cedo, que no território de mãe e filhos o homem era um intruso.
"Cuidado, você vai deixar o bebê cair! Homem não tem mesmo jeito com
criança. Deixa que eu mesma cuido disso, você pode ler seu jornal, ver
seu futebol." Não são frases que fabriquei agora mas pronunciadas por
muitas de nós mesmas àqueles que mais tarde acusaríamos de serem
"distantes" dos filhos. Quem sabe agimos assim para sermos as únicas
donas daquele que julgamos nosso único verdadeiro bem, nosso "objeto"
mais pessoal, produto nosso, saído de nós - o "nosso" filho? Mulheres
levantam paredes em torno da sua relação com o filho e deixam o homem
de fora. Naturalmente passarão a vida queixando-se de que ele não se
interessava pelo bebê, não sabia o que fazer com os filhos.
A solidão dos homens me pareceu mais árida do que a das mulheres, que
têm outros tipos de laços afetivos: família, amigos, até mesmo sua casa.
"Os rapazes, meus colegas" dizia uma universitária, "quando conversam
entre si contam vantagens, falam de dinheiro, futebol, política e
mulher. Nós, as moças (algumas eram já casadas), quando nos reunimos,
trocamos confidências ou nos queixamos (das mães, das empregadas, dos
filhos, dos deveres em casa, ou... dos homens)." Entre o papo
superficial com os amigos e o receio de decepcionar ou assustar (ou
irritar?) as mulheres com sua própria fragilidade, com suas preocupações
mais íntimas ou seus dramas, os homens silenciam. Com suas mulheres
muitas vezes queixosas, obsessivamente encerradas na sua maternidade,
consumindo-se nos cuidados domésticos ou em uma excessiva futilidade,
resta-lhes o papel de provedor. A necessidade de ter alguém com quem
dialogar, com quem realmente se abrir, era quase uma constante em seus
comentários: "Com meus amigos, falo dessas coisas que homem fala:
política, futebol... com a mulher, não quero me abrir porque ela logo
fica nervosa, e me cobra mil coisas... e aos filhos, ah , esses eu
tenho de proteger, não é?" Quase sempre há coisas a melhorar, e quase
sempre podem ser melhoradas. Não é proibido questionar, esclarecer,
explicar. Não é vergonhoso realizar o sonho de estudar, de abrir uma
loja, de fazer uma viagem, de mudar de profissão. Mudar um
relacionamento. Mais fácil é a resignação: morrer antecipadamente.
Velhos casais ressentidos ou jovens casais solitários dentro de casa são
terrivelmente tristes e terrivelmente comuns. "Quando estou deprimido, levantar da cama (e não me arrastar pela casa)
já é um ato heróico", comentou alguém. Viver éum heroísmo, viver bem um
longo amor é mais heróico ainda. Viver sozinho se meu amor fracassou é
uma batalha por mera sobrevivência. Porém, só manter a cabeça à tona
d'água num casamento, é suficiente? Um amigo disse no aniversário de sua
mulher uma das coisas mais bonitas que ouvi: "Todos os dias de nosso
casamento (de uns 40 anos), eu te escolhi de novo como minha mulher." O
casal mais feliz haveria de ser aquele que não desiste de correr atrás
do sonho de que, apesar dos pesares, a gente a cada dia se olharia como
da primeira vez, se enxergaria - e se escolheria novamente.
Um dia me pediram para escrever sobre "o casal perfeito": bom para quem
gosta de desafios. Minha primeira providência foi cercar com aspas o
vocábulo "perfeito". O que justificaria o rótulo sobre o qual eu devia
escrever? Imediatamente ocorreu-me que parceiros de um casal "perfeito"
precisam se querer bem como se querem bem os bons amigos, e temperar
esse afeto com a sensualidade que distingue amizade de amor. Duas
pessoas que compreendem, sem ressentimento nem cobranças, a inevitável
dose de peculiaridades do ser humano e sua dificuldade de comunicação.
Em última análise, toda a sua complicação. A melhor parceria deve ser
aquela em que um aceita o outro sem ter de se submeter a qualquer coisa
pelo outro; em que um aprecia e admira o outro, mas tem por ele ternura e cuidados.
Sobretudo aquela em que um parceiro não investe no outro todos os seus
projetos, à primeira decepção passando de amor a rancor. Se o outro
servir de cabide para os nossos sonhos mais extravagantes de perfeição,
o primeiro vento contrário derruba o pobre ídolo que não tem culpa de
nada. No casamento saudável, há um propósito geral: quero passar com
você o melhor de meus dias, construir com você uma relação gostosa,
importante e definitiva. É importante não correr para os braços do outro
fugindo da chatice da família, da mesmice da solidão, do tédio. E
essencial não se lançar no pescoço do outro caindo na armadilha do
"enfim nunca mais só!", porque numa união com expectativas exageradas
decreta-se o começo do exílio. Amor bom, além do mais, tem de suportar e
superar a convivência diária. A conta a pagar, a empregada que não veio,
o filho doente, a filha complicada, a mãe com Alzheimer, o pai
deprimido, ou o emprego sem graça e o patrão grosseiro. Quando cai
aquela última gota - pode ser uma trivialíssima gota -, a gente explode.
Quer matar e morrer, e nos damos conta: nada mais em nossa relação é
como era no começo. Não é nem de longe como planejávamos que fosse. Não
queremos continuar assim, mas não sabemos o que fazer. Ou sabemos, mas
nos parece inexeqüível. Na verdade, na parceria amorosa como em tudo o
mais recomeçamos tudo todos os dias. Então podemos tentar começar
diferentes também aqui e agora. O cotidiano conforta, os seus pequenos
rituais são os marcos de nossa vida mais segura, mas também traz
desencanto e monotonia.
Precisamos de criatividade num relacionamento amoroso, dizem. O problema
é que quando se fala em "criatividade" numa relação a maioria pensa logo
em inovações no sexo, como se a solução estivesse em novas posições,
outro perfume, artifícios exóticos. Transar bem é resultado, não meio.
Como deveriam ser os filhos: fruto de um afeto vivo, não instrumento
para consertar o que está falido. Passada a primeira fase de paixão
(desculpem mas ela passa, o que não significa tédio nem fim de tesão), a
gente começa a amar de outro jeito. Ou a amar melhor; ou: aí é que a
gente começa a amar; a querer bem; a apreciar; a respeitar; a valorizar;
a mimar; a sentir falta; a conceder espaço; a querer que o outro cresça
e não fique grudado na gente. "Se você ama alguém, deixe-o livre",
estava escrito no bilhetinho que foi um dos maiores presentes que me deu
alguém entre tantos muitos outros bens. Um pouco de lucidez e um bocado
de maturidade (ah, que boa coisa, o tempo) há de mostrar se - e o quê -
pode ser ainda conquistado a dois. Isso entendido, chega o momento da
definição: e agora, o que fazer? Investir, se há mais possibilidades do
que vazio. Como a gente não desiste fácil - porque afinal somos
guerreiros ou nem estaríamos mais aqui, e porque há os filhos, os
compromissos, a casa, a grana e até ainda o afeto -"vamos criar um
jeito de reconstruir o que parece esfarelado. Isto é: quando há vontade,
afeto, quando resta interesse. Desde que seja uma reinvenção a dois, não
a submissão de um e o exílio de outro. Pois o espaço entre opressor e
oprimido é um vazio. Mas e quando realmente nada mais resta de positivo?
Laços podem ser reconstituídos, remendados ou cortados. O corte se faz
com mais ou menos generosidade, carinho ou hostilidade e raiva - sempre
com dor. Porém nenhuma união deveria ser a sentença definitiva de
aniquilamento mútuo dentro de uma jaula.
Como invento histórias, gosto de fábulas. Trabalho com elas, pois são o
espelho da realidade. E porque gosto de histórias de anjos, aqui vai
mais uma. Esta fala de amor, de parceria no amor, de encontrar quem
possa ser nosso cúmplice, muito além e acima de convenções, receitas e
"modas". Era um homem, um homem comum, que um comum destino parecia
controlar inteiramente. Um animal doméstico bem treinado. Um dia sentiu
um incômodo nos dois ombros, distensão muscular, má posição no
trabalho... Foi piorando e resolveu olhar-se no espelho, de lado,
inteiro e nu depois do banho: não havia dúvida, duas saliências oblíquas
apareciam em sua pele abaixo dos ombros. Teve medo mas decidiu não
comentar com ninguém, e como não transava freqüentemente com a mulher,
conseguiu esconder tudo quase um mes. Fez como via fazer sua mulher:
pegou de cima da pia um espelho redondo no qual ela ajeitava o cabelo, e
passou a analisar todo dia aquele fenômeno que, em vez de o assustar,
agora o intrigava. Curioso mas sem sofrer - pois não doía -, foi
observando aquilo crescer. E pensava: Nem adianta ir ao médico, porque se for um tumor (ou dois) tão grande,
não tem mais remédio, é melhor morrer inteiro do que cortado. Certa
vez, quando se masturbava no banheiro, na hora do prazer sentiu que elas
enfim se lançavam de suas costas, e viu-se enfeitado com elas,
desdobradas como as asas de um cisne que apenas tivesse dormido e,
acordando, se espojasse sobre as águas. Ficou ali, nu diante do
espelho, estarrecido. tora ele não era apenas um homem comum com contas
a pagar, emprego a cumprir, família a sustentar, filhos a levar para o
parque, horários a cumprir: era um homem com um encantamento. Eram umas
asas muito práticas aquelas, porque desde que usasse camisa um pouco
larga acomodavam-se maravilhosamente debaixo das roupas. Em Certas
noites, quando todos dormiam, ele saía para o terraço, tirava a roupa e
varava os ares. Sua mulher notou alguma coisa diferente no corpo de seu
marido. Estava ficando curvado, tantas horas na mesa de trabalho. Nada
mais que isso. Embora a mãe lhe tivesse dito que "com homem é sempre
melhor confiar desconfiando", daquele seu homem pacato ela jamais
imaginaria nada muito singular. - Você vai acabar corcunda desse jeito,
aprume-se - ela dizia no seu tom de desaprovação conjugal. As coisas se
complicaram quando, já habituado à sua nova condição, o homem-anjo olhou
em torno e, sendo ainda apenas um homem com asas, sentiu-se muito só. E
começou a pensar nisso. E olhou em torno e se apaixonou. Na primeira
noite com sua amante, esqueceu o problema, tirou a roupa toda, e quando
ela começava a apalpar- lhe as costas o par de asas se abriu, arqueou-se
unindo as pontas bem no alto por cima dele, na hora do supremo prazer.
Mas essa mulher/amante não se assustou, não se afastou. Apertou-se mais
a ele, e dizia: vem comigo, vem comigo, vem comigo... E abriu suas asas
também. (Histórias do tempo, 2000)
Amor é tarefa complexa além de tudo porque para amar preciso primeiro me
amar. Dentro e fora são reflexos mútuos, como dois espelhos em lados
opostos. Vou procurar um amor bom para mim - no qual me reconheço e me
reencontro, me refaço e me amplio, me exploro, me descubro - se minha
imagem interior me levar a isso. O amor mais que tudo nos revela:
manifesta nossas tendências, o que preferimos e escolhemos para nós.
Quero, mereço ser e fazer feliz ou preciso me punir e castigar ao outro;
mereço e posso crescer ou me aniquilar.., e ao outro comigo? "Escolha"
amorosa pode parecer contradição. Antigamente falava-se em "escolher
marido, escolher esposa". Sempre tive quanto a isso grandes reservas.
Hoje penso que é uma escolha, sim, mas não aquela a que tais conselhos
se referiam: trate de escolher bem seu marido, sua mulher. A idéia,
explícita ou não, era: que o marido te dê segurança econômica, que a
mulher seja virtuosa e cuide bem da casa e dos filhos. Isso fala de
arranjos e conveniências, de modelos rígidos impostos de fora. Amor é
outro tipo de escolha. O homem com asas deparou com sua amante alada,
aparentemente por acaso: foi na verdade sua escolha mais vital de uma
parceria. Esse encontro se dá no escuro do desconhecimento mútuo. É em parte consciente, segundo nosso agrado e necessidades, o
projeto que tínhamos, o modelo que queremos. Mas é bastante
inconsciente, brota dos impulsos mais primários daquele nosso eu
dissimulado sob muitas máscaras. Essa é a opção mais grave: nasce de
toda a perspectiva interior. Na escolha do parceiro opto pelo que julgo
merecer. E aí é que podemos apunhalar o próprio peito. Escolho conforme
minha saúde emocional ou minha doença, meus desejos mais obscuros, meus
movimentos inconscientes em direção de afirmação ou destruição. Nosso
lado mais oculto sente, fareja: aqui devo investir minha emoção, aqui
conseguirei me doar, aqui há alguém com quem posso pensar em construir
um relacionamento.
No amor pensamos viver finalmente o mito da fusão com o outro. Queremos
perder a identidade nas mãos daquele que de momento é "tudo" para nós. A
paixão inicial quer ver e mostrar. É compulsão de nos abrirmos com o
outro e mergulharmos nele, revelando os menores detalhes de nosso corpo
e alma, incansáveis relatos do passado, trocas que parecem levar à
sonhada união total. Sabemos cada momento do seu horário, com quem fala,
onde esteve e pretende ou sonharia estar a tal e tal hora -maneira de
estarmos sempre juntos, confirmação de afeto e interesse. Porém uma
ligação amorosa é uma longa elaboração: enfrenta toda uma série de
transformações de parte a parte. Mudamos e os parceiros não mudam
necessariamente no mesmo ritmo, com a mesma intensidade ou no mesmo
sentido.
O instinto e o afeto é que fazem com que os bons casais, os casais
amorosos, usem dessas fases de crise para se renovar e crescer, se
possível juntos. Desde que o instinto seja saudável, o afeto seja bom, a
personalidade aberta. Não há receita. Não há escola. Não há manual. Um
dos parceiros fatalmente envelhece antes, adoece mais. Pode ter reveses
financeiros, pode ter fracassos profissionais. Pode evoluir com a idade
e as circunstâncias, ou ficar atrás em relação ao outro. Instala-se
entre ambos o jogo de poder em que o mais fraco tiraniza aquele que (nem
sempre as mulheres) se submeteu mais, abdicou de mais coisas. Sendo
vulneráveis e culpados essenciais, aquele que está em vantagem (o que
quer que isso signifique) pode ceder a chantagens, podar suas asas e
truncar seu destino para não "humilhar" o parceiro. Se for mulher, mais
complexo o drama. Porque é convenção nossa (quem sabe ainda legado
primitivo das cavernas) que o homem seja o forte e a mulher a frágil, o
homem o dono do dinheiro (= poder) e a mulher a que vive de mesada.
Conheço mulheres de sucesso que a cada fim de mês entregam o dinheiro
para que o marido o administre, porque se sentem incapazes, ou pior:
temem que serem capazes deixe o marido inseguro e agressivo. Uma terapia
dos dois, ou a dois, de um deles ao menos, um aconselhamento que seja,
pode ser uma excelente ferramenta. Férias longe de trabalho e filhos,
oportunidade de reencontro e conversas honestas. Mas freqüentemente
aquele que poderia dar o passo decisivo e consertar sua vida - mesmo
dentro dessa relação - não se permite isso. A culpa não deixa. O medo de perder o parceiro não permite. O receio da solidão, pior ainda. Tudo fica como está: por baixo das aparências corre o rio turvo do lento e tácito suicídio a dois, físico ou moral. É a morte das
alegrias e da ternura, um acordo fatal no qual a esperança fica
revogada. A culpa, disse alguém, é como uma mala cheia de tijolos, peso
inútil que carregamos de um lado para outro sem objetivo algum. Haveria
só uma solução: jogá-la fora inteira ou ao menos parte dela. Mas regras
auto-impostas, acordos nunca verbalizados, ajustes aparentemente
necessários para evitar um conflito que poderia ser salutar - nem falo
da guerra surda que se desenrola tão seguidamente entre casais -, ou
comodismo, nos impedem de agir. Levantam aquelas intransponíveis
colunas de Hércules que serão derrubadas algum momento mais tarde com
violência e dor, ou serão o monumento em honra de duas existências
boicotadas.
Escrevendo sobre amor não posso falar apenas de mulheres submissas.
Conheço maridos tão controlados pela parceira que não sobra espaço para
novas amizades, nem para simples troca de idéias e estímulos - ainda
mais se for com outra mulher. Numa casa que freqüentei em mocinha, o
marido e os filhos homens ao chegar na porta de entrada precisavam
tirar os sapatos: havia chinelos à espera dos pobres. "Não entrem na
minha casa com seus sapatos sujos!", esbravejava o general de saias que
comandava, mais que uma casa, uma jaula.
A personalidade esmagada sonha com uma saída. Eventualmente, se ela
aparece e é mais atraente, ocorre uma ruptura sob o infalível comentário
de quem está de fora: "Mas, como? Pareciam se dar tão bem!" Aqui vale um
PS: a atração fora do laço de uma união que se tornou mortal não precisa
ser "outra pessoa", mas uma oportunidade de crescer, de viajar, de
estudar, de sair do emprego, de travar nova amizade. Poder ser alegre,
poder respirar. Poder confiar. Não se sentir fiscalizado ou ignorado.
Mas a gente pode optar por deixar tudo como está: é assim. Às vezes
realmente não há maneira de escapar. Nesse caso, se aquele anjo da
sombra ou da luz batesse àporta, não saberíamos dar nem ao menos uma boa
razão, só nossa, para que ele não nos levasse, encerrando algo que na
verdade já estava cancelado.
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comentários
Por que escrevo?
Mais
12:57
Sempre que perguntam por que escrevo, minha resposta tem a ver com 'sobre o que escrevo'. De que falo, ao fazer minha literatura? O rótulo mais comum é "ela escreve sobre mulheres". Essa é uma constatação precária, pois não são mulheres meus personagens exclusivos, mas homens e crianças, casas com sótãos e porões, dramas ou banalidades. Falo também do estranho atrás de portas, mortos que vagam e vivos que amam ou esperam. Escrevo sobre o que me assombra – como na infância.
Escrever para mim é indagar: continuo a menina perguntadeira que perturbava os almoços familiares querendo saber tudo, qualquer coisa, o tempo todo. Portanto, escrevo para obter respostas que – eu sei – não existem. E sobre possibilidades de ser mais feliz – essa, eu sei também, depende um pouco de cada um de nós, de nossa honradez interior, nossa fé no ser humano, nosso compromisso com a dignidade.
Escrevo para provocar, e para questionar também: quem somos e como vivemos – como convivemos, sobretudo?
Falo do estranho que somos: nobres e vulgares, sonhadores e consumidores, soprados de esperança e corroídos de terror, generosos e tantas vezes mesquinhos.
Sei, de minhas criaturas inventadas, muito mais do que expresso em linhas ou silêncios – que são sempre o mais importante de um texto meu: sei se aquela mulher usa algodão ou sedas, se a escada range quando ela caminha – ainda que nenhum desses detalhes apareça no romance.
Conheço a solidão daquele homem, sei se cultiva medos secretos, se pensa na morte, se desejaria ser mais amado.
E quando começo a "ser" essa pessoa, quando o clima da obra me envolve e me arrasta, chegou o momento em que o livro quer ser escrito. Estarei aberta a ele, deixarei que essas criaturas subam das profundezas do caldeirão de bruxas que é experiência e alucinação, memória e invenção, perplexidade e amadurecimento, e tentarei dar-lhes voz na minha voz. 'Como uma espécie de possessão... você sente como se estivesse incorporando alguma entidade?' – me perguntou um dia um universitário.
Se fosse assim, não haveria trabalho nem arte, apenas um abrir e fechar de portas. São meus e não são, esses vultos com seus destinos e desatinos – e eu os questiono o tempo inteiro. Faço e desfaço, armo e desarmo, construo e vejo que se esboroam tantos projetos. Qualquer de meus escritos poderia ter um subtítulo: 'O livro das indagações' – porque importa realmente aquilo que não sei... que se insinua, que espia, bota para fora a mãozinha e me chama, sinal sinistro ou doce tentação.
De repente, aí estão meus personagens: um olho, o fino contorno de um perfil, um gesto, um riso ou uma tragédia, um êxtase, um silêncio e uma solidão.
Sobretudo, escrevo sobre essa busca de sentido que imprime em nós sua marca desde o primeiro instante: esse tatear como num fundo d'água onde nossos dedos deparam com um rosto, sim, este me poderá entender, sim, por aqui vai o meu destino... Mas as dissonâncias se sobrepõem, e no fundo de cada um de nós existe o medo, a inquietação, a consciência da morte, do talvez-nada. De outro lado, muitas vezes prevalece a solidariedade, o entendimento, a generosidade interior: podemos não ser amargos, podemos não ficar isolados, podemos nos humanizar mais. E disso também falamos, nós os escritores.
Escrevo porque tenho necessidade e prazer em elaborar com palavras esse traçado de tantas vidas, antas criaturas, tantos destinos e aventuras que povoam minha imaginação, e que acabarão – ou não – vivendo nos meus textos. Quando escrevo inicia-se essa escavação, essa arqueologia, começa a desenrolar-se o fio que nasce em mim. Aracne produz novelos para que eu os teça.
Escrevo para seduzir leitores que sejam meus cúmplices na inquietação fundamental: 'Tive um pouco de medo daquele seu livro, porque ele me fez pensar demais', é um comentário bastante comum. A mim, parece-me que além da fruição estética, a arte existe para nos fazer pensar. Não se pode esquecer também que escrevo propondo uma releitura atenta dos valores familiares e sociais de meu tempo: cada um de meus romances pode e deve ser lido como uma denúncia da hipocrisia, da superficialidade, da indiferença, da negligência e da mentira nas relações humanas, amorosas, familiares e sociais.
Não é apenas o imponderável e misterioso da existência que me interessa, mas o grande desencontro nas relações, o frio silêncio promovido no diálogo humano e pessoal pelo preconceito e pela apatia, pelo desinteresse e pelo isolamento dos indivíduos, sobretudo no núcleo familiar.
O escritor é um ser particularmente antenado, não apenas para o fundo da chamada alma humana, mas, conscientemente, para as realidades a seu redor. E ainda que eu não faça literatura explicitamente engajada, empenho nela um ardente engajamento na aventura existencial humana, e na sua qualidade.
Essa chama, essa antena sutil se multiplica e tateia o mundo e o próprio interior, do qual emana uma luz que resiste e transborda. Os artistas são recipientes de carvões em brasa e têm visões que tentam esconjurar com traços, gestos, música ou palavras... e nesse trânsito entre realidade e sonho, cujas fronteiras para eles pouco importam, vão e vêm entre territórios que igualmente os convocam. Então para mim escrever é transitar – e tentar, quem sabe, fixar relances disso que, com os olhos e com a sensibilidade, todos nós vislumbramos.
O escritor fala pelos outros, e nessa medida sua própria existência individual é desimportante: o que vale e o que brilha são seus personagens, seus questionamentos, suas inquietações, suas palavras, sua busca e a sua eterna indagação.
Porto Alegre, 1999
Escrever para mim é indagar: continuo a menina perguntadeira que perturbava os almoços familiares querendo saber tudo, qualquer coisa, o tempo todo. Portanto, escrevo para obter respostas que – eu sei – não existem. E sobre possibilidades de ser mais feliz – essa, eu sei também, depende um pouco de cada um de nós, de nossa honradez interior, nossa fé no ser humano, nosso compromisso com a dignidade.
Escrevo para provocar, e para questionar também: quem somos e como vivemos – como convivemos, sobretudo?
Falo do estranho que somos: nobres e vulgares, sonhadores e consumidores, soprados de esperança e corroídos de terror, generosos e tantas vezes mesquinhos.
Sei, de minhas criaturas inventadas, muito mais do que expresso em linhas ou silêncios – que são sempre o mais importante de um texto meu: sei se aquela mulher usa algodão ou sedas, se a escada range quando ela caminha – ainda que nenhum desses detalhes apareça no romance.
Conheço a solidão daquele homem, sei se cultiva medos secretos, se pensa na morte, se desejaria ser mais amado.
E quando começo a "ser" essa pessoa, quando o clima da obra me envolve e me arrasta, chegou o momento em que o livro quer ser escrito. Estarei aberta a ele, deixarei que essas criaturas subam das profundezas do caldeirão de bruxas que é experiência e alucinação, memória e invenção, perplexidade e amadurecimento, e tentarei dar-lhes voz na minha voz. 'Como uma espécie de possessão... você sente como se estivesse incorporando alguma entidade?' – me perguntou um dia um universitário.
Se fosse assim, não haveria trabalho nem arte, apenas um abrir e fechar de portas. São meus e não são, esses vultos com seus destinos e desatinos – e eu os questiono o tempo inteiro. Faço e desfaço, armo e desarmo, construo e vejo que se esboroam tantos projetos. Qualquer de meus escritos poderia ter um subtítulo: 'O livro das indagações' – porque importa realmente aquilo que não sei... que se insinua, que espia, bota para fora a mãozinha e me chama, sinal sinistro ou doce tentação.
De repente, aí estão meus personagens: um olho, o fino contorno de um perfil, um gesto, um riso ou uma tragédia, um êxtase, um silêncio e uma solidão.
Sobretudo, escrevo sobre essa busca de sentido que imprime em nós sua marca desde o primeiro instante: esse tatear como num fundo d'água onde nossos dedos deparam com um rosto, sim, este me poderá entender, sim, por aqui vai o meu destino... Mas as dissonâncias se sobrepõem, e no fundo de cada um de nós existe o medo, a inquietação, a consciência da morte, do talvez-nada. De outro lado, muitas vezes prevalece a solidariedade, o entendimento, a generosidade interior: podemos não ser amargos, podemos não ficar isolados, podemos nos humanizar mais. E disso também falamos, nós os escritores.
Escrevo porque tenho necessidade e prazer em elaborar com palavras esse traçado de tantas vidas, antas criaturas, tantos destinos e aventuras que povoam minha imaginação, e que acabarão – ou não – vivendo nos meus textos. Quando escrevo inicia-se essa escavação, essa arqueologia, começa a desenrolar-se o fio que nasce em mim. Aracne produz novelos para que eu os teça.
Escrevo para seduzir leitores que sejam meus cúmplices na inquietação fundamental: 'Tive um pouco de medo daquele seu livro, porque ele me fez pensar demais', é um comentário bastante comum. A mim, parece-me que além da fruição estética, a arte existe para nos fazer pensar. Não se pode esquecer também que escrevo propondo uma releitura atenta dos valores familiares e sociais de meu tempo: cada um de meus romances pode e deve ser lido como uma denúncia da hipocrisia, da superficialidade, da indiferença, da negligência e da mentira nas relações humanas, amorosas, familiares e sociais.
Não é apenas o imponderável e misterioso da existência que me interessa, mas o grande desencontro nas relações, o frio silêncio promovido no diálogo humano e pessoal pelo preconceito e pela apatia, pelo desinteresse e pelo isolamento dos indivíduos, sobretudo no núcleo familiar.
O escritor é um ser particularmente antenado, não apenas para o fundo da chamada alma humana, mas, conscientemente, para as realidades a seu redor. E ainda que eu não faça literatura explicitamente engajada, empenho nela um ardente engajamento na aventura existencial humana, e na sua qualidade.
Essa chama, essa antena sutil se multiplica e tateia o mundo e o próprio interior, do qual emana uma luz que resiste e transborda. Os artistas são recipientes de carvões em brasa e têm visões que tentam esconjurar com traços, gestos, música ou palavras... e nesse trânsito entre realidade e sonho, cujas fronteiras para eles pouco importam, vão e vêm entre territórios que igualmente os convocam. Então para mim escrever é transitar – e tentar, quem sabe, fixar relances disso que, com os olhos e com a sensibilidade, todos nós vislumbramos.
O escritor fala pelos outros, e nessa medida sua própria existência individual é desimportante: o que vale e o que brilha são seus personagens, seus questionamentos, suas inquietações, suas palavras, sua busca e a sua eterna indagação.
Porto Alegre, 1999
Teorias da Alma (Perdas & Ganhos)
perdaseganhos
18:14
Quanto mais recursos temos no campo da psicologia e dos novos conhecimentos sobre as relações humanas, mais inseguros estamos. Quanto mais civilizados, menos naturais somos. Na época em que mais se fala em natureza estamos mais distantes dela. Ser natural passou a n~o ser
natural. Assim é com criar filho. Perplexos diante das mil teorias que nos batem à porta em toda a mídia, e a proliferação de consultórios com todo tipo de terapias (pelas razões mais singulares), estamos nos convencendo de que ter e criar filho nâo é lá muito natural. Passamos
do extremo antigo de achar que criança não pensa ao outro extremo: criança é complicação. Mil receitas de como tratar do bebê ao adolescente atormentam gerações de pais aflitos. A aflição não é boa conselheira. Afobado, aliás, a gente ama bem mal... Esquecemos o melhor mestre: o bom-senso. A escuta do que temos no nosso interior, aquela coisa antiquada chamada intuição, lembram? Claro que para isso precisamos ter bom-senso e ter algo dentro de nós para ser
escutado. Ou cada vez que o bebê chorar desafinado, a criança ficar menos ativa (ela em geral está simplesmente pensando, querendo que finalmente a deixem um pouco quieta), vamos cor-rendo procurar um especialista. Para que ele nos ensine a segurar o bebê, dar a mamadeira, olhar no olho, aconchegar ao peito a criança nossa de cada dia. É que somos, além de aflitos, desorientados. Falta-nos o hábito de observar e de refletir. Preferimos evitar o espelho que faz olhar para dentro de nós. Cada vez mais amadurecemos tarde ou mal. Somos crianças tendo
crianças. Não gostamos de refletir e decidir: se a gente parar para pensar, tudo desmorona, me disse alguém. Temos receio de encontrar a ponta do fio dissimulada na confusão do novelo, e, puxando por ela, ver tudo se desmontar. Mas pode ser positivo: poderíamos recolher os cacos e recomeçar. Quem sabe criar uma estrutura interior mais natural e boa do que essa em que nos fundamos, e baseados nela dar aos filhos um legado - e um recado - tranqüilo e positivo, que não está em livros e nem em consultórios. Ser natural está em crise grave.
natural. Assim é com criar filho. Perplexos diante das mil teorias que nos batem à porta em toda a mídia, e a proliferação de consultórios com todo tipo de terapias (pelas razões mais singulares), estamos nos convencendo de que ter e criar filho nâo é lá muito natural. Passamos
do extremo antigo de achar que criança não pensa ao outro extremo: criança é complicação. Mil receitas de como tratar do bebê ao adolescente atormentam gerações de pais aflitos. A aflição não é boa conselheira. Afobado, aliás, a gente ama bem mal... Esquecemos o melhor mestre: o bom-senso. A escuta do que temos no nosso interior, aquela coisa antiquada chamada intuição, lembram? Claro que para isso precisamos ter bom-senso e ter algo dentro de nós para ser
escutado. Ou cada vez que o bebê chorar desafinado, a criança ficar menos ativa (ela em geral está simplesmente pensando, querendo que finalmente a deixem um pouco quieta), vamos cor-rendo procurar um especialista. Para que ele nos ensine a segurar o bebê, dar a mamadeira, olhar no olho, aconchegar ao peito a criança nossa de cada dia. É que somos, além de aflitos, desorientados. Falta-nos o hábito de observar e de refletir. Preferimos evitar o espelho que faz olhar para dentro de nós. Cada vez mais amadurecemos tarde ou mal. Somos crianças tendo
crianças. Não gostamos de refletir e decidir: se a gente parar para pensar, tudo desmorona, me disse alguém. Temos receio de encontrar a ponta do fio dissimulada na confusão do novelo, e, puxando por ela, ver tudo se desmontar. Mas pode ser positivo: poderíamos recolher os cacos e recomeçar. Quem sabe criar uma estrutura interior mais natural e boa do que essa em que nos fundamos, e baseados nela dar aos filhos um legado - e um recado - tranqüilo e positivo, que não está em livros e nem em consultórios. Ser natural está em crise grave.
Quando a sofisticação de usos e ferramentas se torna quase cotidiana, tendemos a usar de estratégias complexas também quando bastaria apelar para a simplicidade e sensatez. Mesmo em ambientes onde predomiriam os bons afetos, começa antes do nascimento a confusão gerada por algumas teorias imprecisas ou receitas tolas que nada têm a ver com a psicologia
ciência, mas com isso que chamo psicologismo de revista. Quero reafirmar o meu apreço por profissionais da chamada área psi. Quatro anos de terapia me ajudaram a superar um período extremamente difícil.
Sempre que posso homenageio a extraordinária profissional que me
orientou. Mais do que na maioria das profissões, esse é um território ao
qual chegamos porque estamos sofrendo. Estamos vulneráveis, e não
conhecemos os meandros desse novo lugar. Desamparados, ficamos
entregues ao profissional que nos vai cuidar. Tenho observado algumas
jovens que atendem seus pacientes, adultos ou adolescentes, em roupas
mais adequadas àdanceteria do que à gravidade de um consultório. Nunca
me canso de comentar que ali vamos fazer algo mais grave ainda do que
remendar as entranhas numa mesa cirúrgica: tentamos remendar a nossa
pobre alma. Aparência de garotinhas, minissaia, blusa de alcinhas,
maquilagem carregada, tre jeitos infantis ao falar, podem disfarçar uma
bagagem bem respeitável de informações e teorias. Mas eu, que não sou
nem pudica nem moralista, imagino se inspiram confiança nos aflitos que
as procuram; se lhes podem oferecer apoio, sobretudo orientação. Lembro
aqui a história do grupo de médicos residentes que fazia a ronda com seu
professor por uma enfermaria de hospital. Uma das jovens médicas,
vestida precariamente, procurou o mestre e lhe falou no ouvido:
"Professor, quando cheguei perto, o paciente do leito começou a se
masturbar." O professor olhou-a de alto a baixo, e disse tranqüilamente: "Minha
filha, cubra-se." Não acho que as profissionais da área psi devam ser
venerandas matronas. Mas não perturbem ainda mais quem a elas recorre,
mostrando-lhe sua própria alma de minissaia. Pode parecer engraçado, mas
eu levo isso muito a sério. Levo muito a sério ser sério. Levo a sério a
seriedade da doença, seja do corpo ou da mente, a necessidade de amparo
e socorro que levam as pessoas a procurar médicos do corpo e do coração.
E tudo isso se aplica às figuras de pai e mãe dentro de casa. Pai não
tem de ser carrasco nem irmão: tem de ser pai, ombro e abraço;
autoridade, norte e abrigo; camaradagem mas também firmeza. Mãe não tem
de ser amiguinha, tem de ser mde. Tem de ser aquela a quem filhos, mesmo
adultos, sabem que podem recorrer quando tudo falhou, até os melhores
amigos. Não ser a falsa jovenzinha competindo em maquilagem e roupas com
a filha, ou parecendo seduzir colegas do filho - criando
constrangimentos que ela ignora como se não vivesse no real. Conceitos
pouco simpáficos, severos? A vida pode ser bem mais severa que isso.
Amar é dar a uma criança os meios para adquirir uma personalidade
equilibrada. Perguntarão o que é esse equilíbrio, e responderei que cada
um tem o seu. Deve ser o suficiente para não nos afogarmos na primeira
onda. Para isso não se exige nem muita instrução nem grandes bens
materiais. Não se faz teorizando nem debatendo, mas dando regaço acolhedor, mão firme e ouvido atento. Os buracos no chão de nosso passado não são terem nos dado apenas dois
pares de tênis e duas calças, nenhum dos brinquedos eletrônicos
modernos, nem aulas de balé ou idiomas. As falhas do terreno onde vamos
cair, quebrando coração e cara, são provocadas por um ambiente hostil,
pais despreparados ou infelizes. Mais danosos do que pobreza, escola
ruim, roupa modesta, casa simples, bairro suburbano ou excesso de
trabalho. O solo firme serão as relações amorosas. Bom-humor e carinho.
Interesse. Mas como ter isso se o cotidiano é sacrificado e nem nos
comunicamos bem dentro de casa? Um luxo, amar, se muitas vezes não temos
tempo nem de ler o jornal, dinheiro para o fim do mês, alegria para
começar o dia. Por isso digo que gerar e parir é grave responsabilidade.
E que vamos continuar parindo, mais do que corpos, seres humanos
complexos. A fragilidade do relacionamento familiar ou suas eventuais
catástrofes, nossas inseguranças, o dilúvio de informações
contraditórias para as quais não temos muito discernimento, tornam cada
vez mais difícil educar. Então delegamos isso àcreche, ao jardim, à
escola, ao psicólogo, à turma de amigos. Como temos pouco tempo, ninguém
pode exigir que a gente ainda por cima manifeste emoções e dialogue
quando chegamos em casa exaustos de tentar manter a família com as
exigências de consumo que ela tem - ou nós pensamos estar obrigados a
lhe dar. Até porque, se gerar e parir fisicamente é natural, criar é
inserir numa cultura que se sobre põe ao natural. Pode ser repetitivo
e tedioso, problemático. Passamos do extremo da educação rígida à
deseducação simplista.
Conheci a educação pelo terror que imperava antigamente (antes que
conhecimentos de psicologia nos ensinassem a sermos menos cruéis) até em
famílias estruturadas e funcionais: "Se você engolir as sementes, essa
noite vai nascer uma árvore na sua barriga; se você mentir, seu nariz
vai crescer e vem polícia cortar com uma tesoura enorme; se você comer
fruta sem lavar, vai ficar com a barriga cheia de vermes horríveis..."
Hoje caímos no outro extremo. Pais atônitos com a invasão do
psicologismo fácil e nem sempre consistente receiam impor limites aos
filhos para que não fiquem "traumatizados". Pais inseguros ou
desinformados levam filhos aos mais variados especialistas para
tratamentos nem sempre necessários e oportunos. Sei de pais que procuram
a emergência de um hospital para que as enfermeiras cortem as unhas de
seu bebê, ou meçam a temperatura simplesmente porque "hoje eu achei ele
meio quentinho". Ou porque "o bebê chora há três horas sem parar, deve
estar com alguma dor"... e a médica constata apenas que ele precisava de
banho e fraldas limpas. Cortar unhas e botar termômetro não são
emergência. Fraldas sujas não são emergência. Falta de amor e de atenção
podem ser uma emergência. A psicologia ajuda a entender e aliviar, não a
formar a personalidade. Assim a escola, a creche, o jardim-de-infância,
não são lar nem família, professoras não são mães ou tias, e não se deveriam incumbir esses terceiros, por mais dignos e respeitáveis
que sejam, dos deveres de nosso coração. Que deveres são esses? Abrir
um espaço de ternura no cotidiano apressado e difícil, eventualmente
cruel. Deixar aberta a porta dos diálogos não convencionais, com hora
marcada, mas no fluxo habitual do interesse e do carinho. Amor em
família é uma arte, um malabarismo, por vezes um heroísmo. Essencial
como o ar que respiramos. Preparar alguém para viver não se faz com
frases, mas convivendo. Preparar alguém para futuros relacionamentos,
para ter um dia sua profissão, sua família, sua vida, se faz sendo
humano, sendo terno, sendo generoso, sendo firme, sendo ético. Sendo
gente. A idéia de que a vida é um bem, e que merecemos liberdade e
felicidade, se transmite ácredítando nisso. Todo o nosso processo
futuro se antecipa em casa. O respeito pelos filhos modela o respeito
que terão pelos outros e por si. A chegada de mais uma criança ensina a
dividir, a competir saudavelmente, a amar com generosidade e a se
valorizar. Isso não se incute com frases ensaiadas, mas com uma atitude
geral. Isso que se chama clima. Qual o clima que reina em nossa casa?
Se nossa postura for de uma desconfiança geral, não haverá palavras,
joguinhos, terapeutas, que convençam a criança de que amar não é
mortal, de que confiança é possível, e até de que a chegada de um irmão
pode ser um barato. O ambiente em que vive é que vai lhe indicar se é
bom ter família, ter irmãos, amigos, amores, se vale a pena - se é
possível amar e respeitar sem ser traído.
Conviver gera problemas e atritos, mas também alegria e crescimento
pessoal. Vai haver ciúme entre irmãos? Vai. Também isso é normal, é
antecipação de laços futuros. Dividir pode ser ruim, pode ser
desagradável: quem não quereria tudo para si: os brinquedos, os pais, a
casa, o mundo inteiro? Mas dividindo se reforçam auto-estima e
capacidade de interação. É positivo, mas tem de nos ser mostrado assim.
Nada disso exige grandes estudos ou recursos financeiros. Exige
dedicação, exige delicadeza, exige ternura: o mínimo que pode esperar
quem nasceu de nós.
Nosso legado real aos filhos não é a casa, não é a conta bancária, não é
nem mesmo o estudo, como diziam nossos avós. O verdadeiro tesouro do
qual eles vão se alimentar (ou terão de se libertar) é o recado que lhes
passamos diariamente. Não está em palavras escolhidas para momentos
especiais. Não consiste em noites de Natal ou festas de aniversário, não
está na hora do sermão ou do elogio. Contudo, frases como essas baixam
diante de seu olhar o véu da suspeita: "Você está precisando de um
irmão, aí vai aprender a ser menos egoísta)" "Quando seu irmão nascer,
vai acabar essa moleza toda." "Ainda bem que ano que vem você vai pra
escola, aí vão lhe ensinar disciplina!" "Quando você crescer, vai ver o
que é bom, aproveite agora que só precisa brincar." "Quando você casar
e tiver filhos, aí sim, vai se lembrar com saudade de quando era
criança."
"Eu bem queria que você já fosse casado e cheio de filhos, pra ver o
quanto dói uma saudade." Somos emocionalmente tão rasteiros que os
afetos são um dever? Nós realmente sentimos isso, pensamos isso, temos
uma afetividade tão pobre... ou achamos que ameaçar é educativo? E se
isso nos foi ensinado, o que fizemos para corrigir essa nossa
deficiência? Pior: muito mais do que palavras, falam em nós o gesto, a
voz, o olhar, a química que exalamos. Isso que impera em nosso quarto,
nossa cama, nossa casa, nossa mesa - essa aura que distingue pessoas e
grupos: afeto ou intolerância, parceria ou deslealdade. Atritos fazem
parte da realidade e certamente são menos danosos do que a
dissimulação. O escondido debaixo do tapete é um tumor mais mortal
porque oculto. Todas as relações precisam ser reenquadradas aqui e ali,
ainda que aos trancos e com sofrimento. Porém eu sou dos que acreditam
que além e acima disso amar é possível, pelo menos amar mais, amar
melhor - amar com alegria. As pessoas que nos amam - e a quem amamos -
não são necessariamente bonitas, saudáveis, agradáveis. Isso também
acontece entre pais e filhos. Nem sempre quem tem filhos gosta de
criança. Não é um defeito de personalidade nem algo perverso. Há quem só
pegando um filho nos braços pela primeira vez sente toda uma gama de
emoções desconhecidas, que de repente o/a inundam e enriquecem. Outros
têm a alma ossuda como alguns abraços. Mas há quem simplesmente não
nasceu para ser mãe ou pai, embora possa curtir bem outros afetos.
Essas pessoas, homens e mulheres (pois não somos simples feixes de
instintos), não têm equipamento emocional para isso. Ou nao lhes foi
ensinado a amar, por sua vez, quando pequenos.
"Pai, olha ali que lindo! Pára o carro para eu apanhar umas flores para
a vovó?" A menina colheu flores-do-campo amarelas e roxas, e as segurava
no colo durante o trajeto, olhos brilhando de alegria. Quando chegaram,
correu para entregá-las à avó. Esta, num gesto espontâneo portanto
sincero, encolheu-se toda e comentou com voz áspera: "Bota isso fora,
essas flores de beira de estrada são sujas e têm bichinhos que picam a
gente!" Nunca esquecerei a expressão do rosto dessa criança. A mulher
que revelava tal frieza não era má pessoa. Não era desprovida de afetos.
Porém sua confiança em coisas e pessoas devia ter sido solapada quando
também ela era uma menina com braçadas de flores para algum adulto de
alma árida. "Você nasceu por acidente, claro que eu te amo, mas nunca
quis ter filhos" ou "eu quis ter só seu irmão, mas seu pai quis tentar
uma menina".., são bofetadas, não na cara mas na autoestima. Algumas
pessoas não deveriam se sobrecarregar emocionalmente gerando filhos. Não
acredito em afetos escravizadores ou escravos, o que para mim é
essencial para outro pode ser dispensável ou pesado. Nem por isso ele ou
eu seremos alguém melhor ou pior. Ter filhos não garante uma união mais ou menos
boa. Mas porque a gente acha que deve, porque a família cobra, porque a
sociedade espera, porque o cônjuge sonhava com isso, porque nos
exigimos seja como for - mesmo sem gostar particularmente da idéia,
temos um filho. Depois, sabe Deus por que (por "descuido", para segurar
o casamento, para consertar coisas, para encher o vazio), teremos mais
um ou dois. Preparada a cena para a desestruturação afetiva que se
propaga como círculos na água quando ali se joga uma pedra impossível
de moer. Quando falei da minha alegria porque nasceriam em minha casa
duas menininhas gêmeas, me disseram em tom de reprovação: "Mas então
você quer mesmo ser uma velha que cuida de netos?" Outra reação de
algumas das pessoas a quem contávamos a novidade, manifestação
impensada por isso sincera, era negativa: "Gêmeas? Duaaaas? Que
trabalheira! Lá se foi o seu sossego! Ah, pobre da sua filha! E a irmã
delas, coitada, já está com muito ciúme?" Trabalhos e alegrias dobraram.
E verdade. Ciúme é o sentimento natural de qualquer criança em cujo
universo aparecem competidores e companheiros. Não necessariamente
inimigos. Mas ter irmãos é normal, é alegre se a casa for alegre. Tendo
irmãos, qualquer criança num ambiente sensato está sendo preparada para
compartilhar, respeitar o outro e afirmar-se sem querer destruir esse
outro. Até hoje, as gêmeas já tendo alguns meses, às vezes indagam: "E a
coitadinha da irmã, como está-se virando?"
Eu, que a observo diariamente, diria que se vira muito bem. Sendo
criança num ambiente amoroso e bastante calmo, ela resolve de várias
maneiras o "problema". Isso transparece em atitudes encantadoras como:
Ganhou de presente um enfeite de cabelos com duas bonequinhas iguais.
Alguém perguntou: "São as irmãzinhas?" Resposta dela: "Não, ora, essas
somos a minha mamãe e eu." Tínhamos comprado grandes bonecas de pano
para enfeitar os dois berços. A irmã pegou uma delas e por uns dois dias
a levava consigo. Indagada, disse: "A mamãe comprou uma boneca pra mim e
uma pra Fernanda, e esqueceu da Fabiana, mas já vai comprar." Não
censuramos, não desmentimos. Ela estava armando em seu universo o lugar
que caberia a cada criança, e com certeza o seu não era o último nem
estava seriamente ameaçado. Em pouco tempo acabou largando a boneca no
berço da irmã e voltou para seus brinquedos habituais. De momento a
atividade nesta casa requer reajustes, em especial para uma menina de 4
anos. Lidamos ao mesmo tempo com duas pequenas vidas cheias de
solicitações. As vezes todas as mulheres da casa rodeiam os dois
carrinhos como as fadas de um conto mágico, para admirar, amar,
socorrer. Tenho fotos de minha mesa de trabalho com uma mamadeira junto
do computador ou dois carrinhos com bebês adormecidos junto desta
cadeira onde escrevo. Obrigação, chateação? Escolha amorosa.
Não porque eu seja uma boa pessoa ou sequer uma avó muito convencional.
Mas porque para todos nós este é um estágio de trabalho e encantamento.
Treinamos mais carinho, paciência e reflexão. Na balança dos dias
certamente a alegria pesa muito mais do que todo o resto, e estão-se
estabelecendo laços de afeto que o tempo não vai deteriorar. No cenário
da família espero ser o que sempre desejei: um ser humano vulnerável e
complicado mas amoroso, que curte os outros. Com todos os meus erros,
falhas e manias, aprecio laços e afetos, e me ilumina essa sensação de
que, afinal, vale a pena. Não vivo pensando que a toda hora alguém vai
me trair. Muitas vezes tenho medo. Freqüentemente me engano. Devo
machucar quem amo, e certamente sem razão me sinto ferida algumas
vezes. Todos os pequenos dramas humanos são meus. Nos meus anos e
multiplicados afetos, mais de uma vez quando pensei que haveria uma
celebração, foi um fiasco. Quando imaginei um encontro, foi solidão.
Quando quis abraço, fui segregada. Ou muito disso se realizou e foi
belo, e bom, muito além de minhas expectativas. Mas aqui, nesta zona de
afetos familiares ancestrais - que se restringiu pelo tempo e
circunstâncias da vida moderna -mais que perder, continuo ganhando.
Esperando que dentro das pequenas ou grandes tempestades que ocorrem
para todos nós, fique uma memória de esperança, de amor e lealdade.
O homem estava pegando as chaves do carro (a mulher já tinha saído para
levar as crianças à escola) quando tocaram a campainha. Vagamente
irritado, pois já se atrasara bastante, ele abre a porta: - Sim? O rapaz
alto e estranho, andrógino, belo e feio, alto e baixo, negro e louro,
faz um sínalzinho dobrando o indicador: - Vim buscar você. Não era
preciso explicar, o homem entendeu na hora: o Anjo da Morte estava ali,
e não havia como escapar. Mas, acostumado a negociações, mesmo
perturbado ele rapidamente pensou que era cedo, cedo demais, e tentou
argumentar: - Mas, como, o quê? Agora, assim sem aviso sem nada? Nem um
prazo decente? O Anjo sorri, um sorriso bondoso e perverso, suspira e
diz: - Mas ninguém tem a originalidade de me receber com simpatia neste
mundo, ninguém nunca está preparado? Está certo que você só tem 40
anos, mas mesmo os de 80 se recusam... O homem agarrou mais firme a
chave do carro, que afinal encontrara no bolso do paletó, e insistiu: -
Vem cá, me dá uma chance. O Anjo teve pena, aquele grandalhão estava
realmente apavorado. Ah, os humanos... Então teve um acesso de bondade
e concedeu: - Tudo bem. Eu te dou uma chance, se você me der três boas
razões para não vir comigo desta vez. (Passava um brilho malicioso nos
olhos azuis e negros daquele Anjo?)
O homem aprumou-se, claro, ele sabia que ia dar certo, sempre fora bom
negociador. Mas quando abria a boca para começar sua ladainha de razões,
muito mais que três, ah sim, o Anjo ergueu um dedo imperioso: - Espera
aí. Três boas razões, mas... não vale dizer que seus negócios precisam
ser organizados, sua família não está garantida, sua mulher nem sabe
assinar cheque, seus filhos nada sabem da realidade. O que interessa é
você, você mesmo. Por que valeria a pena ainda te deixar por aqui algum
tempo?
Contaram-me essa fábula, que já narrei em outro livro, e nele quem abria
a porta era uma mulher. A objeção que o Anjo lhe fazia antes de ela
começar a recitar seus motivos era: "Não vale dizer que é porque marido
e filhos precisam de ....... Essa historinha fala do quanto valemos para nós mesmos, do quanto
valemos por nós mesmos, do que realmente sentimos e pensamos sobre nós.
Alguém me disse, tranqüilamente consciente de suas limitações e suas
conquistas: - Se eu hoje aos 61 encontrasse o rapaz idealista que fui
aos 18, não me envergonharia de apertar-lhe a mão, e o olharia nos
olhos sem ter de baixar os meus. Fez esse comentário sem laivo de
solenidade ou autoglorificação, antes bem- humorado. Aquela doce ironia
com relação a si mesmo que não é desprezo mas amor. Quantos de nós
podemos dizer isso? Com que argumentos persuadiríamos o anjo visitante
de ainda não nos levar motivo para refletir sobre a passagem do tempo e nosso crescimento como seres humanos. Em como podemos nos programar, resgatar, desestruturar,
reconstruir, boicotar, ou investir nossa cota de humanidade em um
projeto pessoal que faça algum sentido. Boa razão para pensar no valor
de ter valores; de avaliar a vida, não apenas correr pela sua
superfície. Interrompemos de vez em quando nossa atividade para isso -
ou nos atordoamos na agitação da mídia, da moda, do consumo, da corrida
pelo melhor salário, melhor lugar, melhor mesa no restaurante, melhor
modo de enganar o outro e subir, ainda que infimamente, no meu ínfimo
posto? "Ah, eu sigo meus valores." "Ensinei meus valores a meus filhos."
Usamos esse termo com muita facilidade. Que valores, quais valores?
Aqueles segundo os quais tento viver, expressos não num eventual sermão
ou palavreado, mas na maneira como vivo meu cotidiano em família, no
trabalho, com amigos, com meus amores? Tendo consciência de que
amando-nos mais poderíamos viver melhor, passaremos a trabalhar nisso.
Começamos tentando mudar de perspectiva: em lugar de enxergar só a
parede em frente, contemplar um pedaço que seja de paisagem. Passar de
vítima a autor de si mesmo é um bom movimento. Amadurecer auxilia na
tarefa de ver melhor a realidade, e não é uma catástrofe. Ler ajuda.
Abrir os olhos para o belo e o positivo ajuda. Amar e ser amado ajuda.
Terapia ajuda. No mínimo, ajudará a mantermos a cabeça à tona d'água em
lugar de nos afogarmos na autocomiseração. Reinventar-se inteiramente é
impossível: o contorno dessas margens, o terreno de que são feitas está
estabelecido.Trazemos uma chancela na alma - mas podemos redefinir seus limites. Quem sabe
mudamos as cores aqui, ali abrimos uma clareira e erguemos um abrigo.
Muito vai depender do quanto esperamos e acreditamos. De modo geral acho
que nos contentamos com muito pouco. Não falo em dinheiro, carro, casa,
roupa, jóias, viagens, que esses cobiçamos cada vez mais. Refiro-me aos
tesouros humanos: ética, lealdade, amizade, amor, sensualidade boa.
Nossas asas não são tão precárias que tenhamos de voar junto ao chão ou
apenas arrastar nosso peso. Nem somos tão covardes que não possamos
botar a cabeça fora do casulo e espiar: quem sabe no tempo do qual
fugimos nos aguarde, querendo ser colhido, algo chamado futuro,
confiança, projeto, vida. Ainda que a gente nem perceba, tudo é avanço e
transformação, acúmulo de experiência, dores do parto de nós mesmos,
cada dia refeito. Somos melhores do que imaginamos ser. Que no espelho
posto à nossa frente na hora de nascer a gente ao fim tenha projetado
mais do que um vazio, um nada, uma frustração: um rosto pleno, talvez
toda uma paisagem vista das varandas da nossa alma.
ciência, mas com isso que chamo psicologismo de revista. Quero reafirmar o meu apreço por profissionais da chamada área psi. Quatro anos de terapia me ajudaram a superar um período extremamente difícil.
Sempre que posso homenageio a extraordinária profissional que me
orientou. Mais do que na maioria das profissões, esse é um território ao
qual chegamos porque estamos sofrendo. Estamos vulneráveis, e não
conhecemos os meandros desse novo lugar. Desamparados, ficamos
entregues ao profissional que nos vai cuidar. Tenho observado algumas
jovens que atendem seus pacientes, adultos ou adolescentes, em roupas
mais adequadas àdanceteria do que à gravidade de um consultório. Nunca
me canso de comentar que ali vamos fazer algo mais grave ainda do que
remendar as entranhas numa mesa cirúrgica: tentamos remendar a nossa
pobre alma. Aparência de garotinhas, minissaia, blusa de alcinhas,
maquilagem carregada, tre jeitos infantis ao falar, podem disfarçar uma
bagagem bem respeitável de informações e teorias. Mas eu, que não sou
nem pudica nem moralista, imagino se inspiram confiança nos aflitos que
as procuram; se lhes podem oferecer apoio, sobretudo orientação. Lembro
aqui a história do grupo de médicos residentes que fazia a ronda com seu
professor por uma enfermaria de hospital. Uma das jovens médicas,
vestida precariamente, procurou o mestre e lhe falou no ouvido:
"Professor, quando cheguei perto, o paciente do leito começou a se
masturbar." O professor olhou-a de alto a baixo, e disse tranqüilamente: "Minha
filha, cubra-se." Não acho que as profissionais da área psi devam ser
venerandas matronas. Mas não perturbem ainda mais quem a elas recorre,
mostrando-lhe sua própria alma de minissaia. Pode parecer engraçado, mas
eu levo isso muito a sério. Levo muito a sério ser sério. Levo a sério a
seriedade da doença, seja do corpo ou da mente, a necessidade de amparo
e socorro que levam as pessoas a procurar médicos do corpo e do coração.
E tudo isso se aplica às figuras de pai e mãe dentro de casa. Pai não
tem de ser carrasco nem irmão: tem de ser pai, ombro e abraço;
autoridade, norte e abrigo; camaradagem mas também firmeza. Mãe não tem
de ser amiguinha, tem de ser mde. Tem de ser aquela a quem filhos, mesmo
adultos, sabem que podem recorrer quando tudo falhou, até os melhores
amigos. Não ser a falsa jovenzinha competindo em maquilagem e roupas com
a filha, ou parecendo seduzir colegas do filho - criando
constrangimentos que ela ignora como se não vivesse no real. Conceitos
pouco simpáficos, severos? A vida pode ser bem mais severa que isso.
Amar é dar a uma criança os meios para adquirir uma personalidade
equilibrada. Perguntarão o que é esse equilíbrio, e responderei que cada
um tem o seu. Deve ser o suficiente para não nos afogarmos na primeira
onda. Para isso não se exige nem muita instrução nem grandes bens
materiais. Não se faz teorizando nem debatendo, mas dando regaço acolhedor, mão firme e ouvido atento. Os buracos no chão de nosso passado não são terem nos dado apenas dois
pares de tênis e duas calças, nenhum dos brinquedos eletrônicos
modernos, nem aulas de balé ou idiomas. As falhas do terreno onde vamos
cair, quebrando coração e cara, são provocadas por um ambiente hostil,
pais despreparados ou infelizes. Mais danosos do que pobreza, escola
ruim, roupa modesta, casa simples, bairro suburbano ou excesso de
trabalho. O solo firme serão as relações amorosas. Bom-humor e carinho.
Interesse. Mas como ter isso se o cotidiano é sacrificado e nem nos
comunicamos bem dentro de casa? Um luxo, amar, se muitas vezes não temos
tempo nem de ler o jornal, dinheiro para o fim do mês, alegria para
começar o dia. Por isso digo que gerar e parir é grave responsabilidade.
E que vamos continuar parindo, mais do que corpos, seres humanos
complexos. A fragilidade do relacionamento familiar ou suas eventuais
catástrofes, nossas inseguranças, o dilúvio de informações
contraditórias para as quais não temos muito discernimento, tornam cada
vez mais difícil educar. Então delegamos isso àcreche, ao jardim, à
escola, ao psicólogo, à turma de amigos. Como temos pouco tempo, ninguém
pode exigir que a gente ainda por cima manifeste emoções e dialogue
quando chegamos em casa exaustos de tentar manter a família com as
exigências de consumo que ela tem - ou nós pensamos estar obrigados a
lhe dar. Até porque, se gerar e parir fisicamente é natural, criar é
inserir numa cultura que se sobre põe ao natural. Pode ser repetitivo
e tedioso, problemático. Passamos do extremo da educação rígida à
deseducação simplista.
Conheci a educação pelo terror que imperava antigamente (antes que
conhecimentos de psicologia nos ensinassem a sermos menos cruéis) até em
famílias estruturadas e funcionais: "Se você engolir as sementes, essa
noite vai nascer uma árvore na sua barriga; se você mentir, seu nariz
vai crescer e vem polícia cortar com uma tesoura enorme; se você comer
fruta sem lavar, vai ficar com a barriga cheia de vermes horríveis..."
Hoje caímos no outro extremo. Pais atônitos com a invasão do
psicologismo fácil e nem sempre consistente receiam impor limites aos
filhos para que não fiquem "traumatizados". Pais inseguros ou
desinformados levam filhos aos mais variados especialistas para
tratamentos nem sempre necessários e oportunos. Sei de pais que procuram
a emergência de um hospital para que as enfermeiras cortem as unhas de
seu bebê, ou meçam a temperatura simplesmente porque "hoje eu achei ele
meio quentinho". Ou porque "o bebê chora há três horas sem parar, deve
estar com alguma dor"... e a médica constata apenas que ele precisava de
banho e fraldas limpas. Cortar unhas e botar termômetro não são
emergência. Fraldas sujas não são emergência. Falta de amor e de atenção
podem ser uma emergência. A psicologia ajuda a entender e aliviar, não a
formar a personalidade. Assim a escola, a creche, o jardim-de-infância,
não são lar nem família, professoras não são mães ou tias, e não se deveriam incumbir esses terceiros, por mais dignos e respeitáveis
que sejam, dos deveres de nosso coração. Que deveres são esses? Abrir
um espaço de ternura no cotidiano apressado e difícil, eventualmente
cruel. Deixar aberta a porta dos diálogos não convencionais, com hora
marcada, mas no fluxo habitual do interesse e do carinho. Amor em
família é uma arte, um malabarismo, por vezes um heroísmo. Essencial
como o ar que respiramos. Preparar alguém para viver não se faz com
frases, mas convivendo. Preparar alguém para futuros relacionamentos,
para ter um dia sua profissão, sua família, sua vida, se faz sendo
humano, sendo terno, sendo generoso, sendo firme, sendo ético. Sendo
gente. A idéia de que a vida é um bem, e que merecemos liberdade e
felicidade, se transmite ácredítando nisso. Todo o nosso processo
futuro se antecipa em casa. O respeito pelos filhos modela o respeito
que terão pelos outros e por si. A chegada de mais uma criança ensina a
dividir, a competir saudavelmente, a amar com generosidade e a se
valorizar. Isso não se incute com frases ensaiadas, mas com uma atitude
geral. Isso que se chama clima. Qual o clima que reina em nossa casa?
Se nossa postura for de uma desconfiança geral, não haverá palavras,
joguinhos, terapeutas, que convençam a criança de que amar não é
mortal, de que confiança é possível, e até de que a chegada de um irmão
pode ser um barato. O ambiente em que vive é que vai lhe indicar se é
bom ter família, ter irmãos, amigos, amores, se vale a pena - se é
possível amar e respeitar sem ser traído.
Conviver gera problemas e atritos, mas também alegria e crescimento
pessoal. Vai haver ciúme entre irmãos? Vai. Também isso é normal, é
antecipação de laços futuros. Dividir pode ser ruim, pode ser
desagradável: quem não quereria tudo para si: os brinquedos, os pais, a
casa, o mundo inteiro? Mas dividindo se reforçam auto-estima e
capacidade de interação. É positivo, mas tem de nos ser mostrado assim.
Nada disso exige grandes estudos ou recursos financeiros. Exige
dedicação, exige delicadeza, exige ternura: o mínimo que pode esperar
quem nasceu de nós.
Nosso legado real aos filhos não é a casa, não é a conta bancária, não é
nem mesmo o estudo, como diziam nossos avós. O verdadeiro tesouro do
qual eles vão se alimentar (ou terão de se libertar) é o recado que lhes
passamos diariamente. Não está em palavras escolhidas para momentos
especiais. Não consiste em noites de Natal ou festas de aniversário, não
está na hora do sermão ou do elogio. Contudo, frases como essas baixam
diante de seu olhar o véu da suspeita: "Você está precisando de um
irmão, aí vai aprender a ser menos egoísta)" "Quando seu irmão nascer,
vai acabar essa moleza toda." "Ainda bem que ano que vem você vai pra
escola, aí vão lhe ensinar disciplina!" "Quando você crescer, vai ver o
que é bom, aproveite agora que só precisa brincar." "Quando você casar
e tiver filhos, aí sim, vai se lembrar com saudade de quando era
criança."
"Eu bem queria que você já fosse casado e cheio de filhos, pra ver o
quanto dói uma saudade." Somos emocionalmente tão rasteiros que os
afetos são um dever? Nós realmente sentimos isso, pensamos isso, temos
uma afetividade tão pobre... ou achamos que ameaçar é educativo? E se
isso nos foi ensinado, o que fizemos para corrigir essa nossa
deficiência? Pior: muito mais do que palavras, falam em nós o gesto, a
voz, o olhar, a química que exalamos. Isso que impera em nosso quarto,
nossa cama, nossa casa, nossa mesa - essa aura que distingue pessoas e
grupos: afeto ou intolerância, parceria ou deslealdade. Atritos fazem
parte da realidade e certamente são menos danosos do que a
dissimulação. O escondido debaixo do tapete é um tumor mais mortal
porque oculto. Todas as relações precisam ser reenquadradas aqui e ali,
ainda que aos trancos e com sofrimento. Porém eu sou dos que acreditam
que além e acima disso amar é possível, pelo menos amar mais, amar
melhor - amar com alegria. As pessoas que nos amam - e a quem amamos -
não são necessariamente bonitas, saudáveis, agradáveis. Isso também
acontece entre pais e filhos. Nem sempre quem tem filhos gosta de
criança. Não é um defeito de personalidade nem algo perverso. Há quem só
pegando um filho nos braços pela primeira vez sente toda uma gama de
emoções desconhecidas, que de repente o/a inundam e enriquecem. Outros
têm a alma ossuda como alguns abraços. Mas há quem simplesmente não
nasceu para ser mãe ou pai, embora possa curtir bem outros afetos.
Essas pessoas, homens e mulheres (pois não somos simples feixes de
instintos), não têm equipamento emocional para isso. Ou nao lhes foi
ensinado a amar, por sua vez, quando pequenos.
"Pai, olha ali que lindo! Pára o carro para eu apanhar umas flores para
a vovó?" A menina colheu flores-do-campo amarelas e roxas, e as segurava
no colo durante o trajeto, olhos brilhando de alegria. Quando chegaram,
correu para entregá-las à avó. Esta, num gesto espontâneo portanto
sincero, encolheu-se toda e comentou com voz áspera: "Bota isso fora,
essas flores de beira de estrada são sujas e têm bichinhos que picam a
gente!" Nunca esquecerei a expressão do rosto dessa criança. A mulher
que revelava tal frieza não era má pessoa. Não era desprovida de afetos.
Porém sua confiança em coisas e pessoas devia ter sido solapada quando
também ela era uma menina com braçadas de flores para algum adulto de
alma árida. "Você nasceu por acidente, claro que eu te amo, mas nunca
quis ter filhos" ou "eu quis ter só seu irmão, mas seu pai quis tentar
uma menina".., são bofetadas, não na cara mas na autoestima. Algumas
pessoas não deveriam se sobrecarregar emocionalmente gerando filhos. Não
acredito em afetos escravizadores ou escravos, o que para mim é
essencial para outro pode ser dispensável ou pesado. Nem por isso ele ou
eu seremos alguém melhor ou pior. Ter filhos não garante uma união mais ou menos
boa. Mas porque a gente acha que deve, porque a família cobra, porque a
sociedade espera, porque o cônjuge sonhava com isso, porque nos
exigimos seja como for - mesmo sem gostar particularmente da idéia,
temos um filho. Depois, sabe Deus por que (por "descuido", para segurar
o casamento, para consertar coisas, para encher o vazio), teremos mais
um ou dois. Preparada a cena para a desestruturação afetiva que se
propaga como círculos na água quando ali se joga uma pedra impossível
de moer. Quando falei da minha alegria porque nasceriam em minha casa
duas menininhas gêmeas, me disseram em tom de reprovação: "Mas então
você quer mesmo ser uma velha que cuida de netos?" Outra reação de
algumas das pessoas a quem contávamos a novidade, manifestação
impensada por isso sincera, era negativa: "Gêmeas? Duaaaas? Que
trabalheira! Lá se foi o seu sossego! Ah, pobre da sua filha! E a irmã
delas, coitada, já está com muito ciúme?" Trabalhos e alegrias dobraram.
E verdade. Ciúme é o sentimento natural de qualquer criança em cujo
universo aparecem competidores e companheiros. Não necessariamente
inimigos. Mas ter irmãos é normal, é alegre se a casa for alegre. Tendo
irmãos, qualquer criança num ambiente sensato está sendo preparada para
compartilhar, respeitar o outro e afirmar-se sem querer destruir esse
outro. Até hoje, as gêmeas já tendo alguns meses, às vezes indagam: "E a
coitadinha da irmã, como está-se virando?"
Eu, que a observo diariamente, diria que se vira muito bem. Sendo
criança num ambiente amoroso e bastante calmo, ela resolve de várias
maneiras o "problema". Isso transparece em atitudes encantadoras como:
Ganhou de presente um enfeite de cabelos com duas bonequinhas iguais.
Alguém perguntou: "São as irmãzinhas?" Resposta dela: "Não, ora, essas
somos a minha mamãe e eu." Tínhamos comprado grandes bonecas de pano
para enfeitar os dois berços. A irmã pegou uma delas e por uns dois dias
a levava consigo. Indagada, disse: "A mamãe comprou uma boneca pra mim e
uma pra Fernanda, e esqueceu da Fabiana, mas já vai comprar." Não
censuramos, não desmentimos. Ela estava armando em seu universo o lugar
que caberia a cada criança, e com certeza o seu não era o último nem
estava seriamente ameaçado. Em pouco tempo acabou largando a boneca no
berço da irmã e voltou para seus brinquedos habituais. De momento a
atividade nesta casa requer reajustes, em especial para uma menina de 4
anos. Lidamos ao mesmo tempo com duas pequenas vidas cheias de
solicitações. As vezes todas as mulheres da casa rodeiam os dois
carrinhos como as fadas de um conto mágico, para admirar, amar,
socorrer. Tenho fotos de minha mesa de trabalho com uma mamadeira junto
do computador ou dois carrinhos com bebês adormecidos junto desta
cadeira onde escrevo. Obrigação, chateação? Escolha amorosa.
Não porque eu seja uma boa pessoa ou sequer uma avó muito convencional.
Mas porque para todos nós este é um estágio de trabalho e encantamento.
Treinamos mais carinho, paciência e reflexão. Na balança dos dias
certamente a alegria pesa muito mais do que todo o resto, e estão-se
estabelecendo laços de afeto que o tempo não vai deteriorar. No cenário
da família espero ser o que sempre desejei: um ser humano vulnerável e
complicado mas amoroso, que curte os outros. Com todos os meus erros,
falhas e manias, aprecio laços e afetos, e me ilumina essa sensação de
que, afinal, vale a pena. Não vivo pensando que a toda hora alguém vai
me trair. Muitas vezes tenho medo. Freqüentemente me engano. Devo
machucar quem amo, e certamente sem razão me sinto ferida algumas
vezes. Todos os pequenos dramas humanos são meus. Nos meus anos e
multiplicados afetos, mais de uma vez quando pensei que haveria uma
celebração, foi um fiasco. Quando imaginei um encontro, foi solidão.
Quando quis abraço, fui segregada. Ou muito disso se realizou e foi
belo, e bom, muito além de minhas expectativas. Mas aqui, nesta zona de
afetos familiares ancestrais - que se restringiu pelo tempo e
circunstâncias da vida moderna -mais que perder, continuo ganhando.
Esperando que dentro das pequenas ou grandes tempestades que ocorrem
para todos nós, fique uma memória de esperança, de amor e lealdade.
O homem estava pegando as chaves do carro (a mulher já tinha saído para
levar as crianças à escola) quando tocaram a campainha. Vagamente
irritado, pois já se atrasara bastante, ele abre a porta: - Sim? O rapaz
alto e estranho, andrógino, belo e feio, alto e baixo, negro e louro,
faz um sínalzinho dobrando o indicador: - Vim buscar você. Não era
preciso explicar, o homem entendeu na hora: o Anjo da Morte estava ali,
e não havia como escapar. Mas, acostumado a negociações, mesmo
perturbado ele rapidamente pensou que era cedo, cedo demais, e tentou
argumentar: - Mas, como, o quê? Agora, assim sem aviso sem nada? Nem um
prazo decente? O Anjo sorri, um sorriso bondoso e perverso, suspira e
diz: - Mas ninguém tem a originalidade de me receber com simpatia neste
mundo, ninguém nunca está preparado? Está certo que você só tem 40
anos, mas mesmo os de 80 se recusam... O homem agarrou mais firme a
chave do carro, que afinal encontrara no bolso do paletó, e insistiu: -
Vem cá, me dá uma chance. O Anjo teve pena, aquele grandalhão estava
realmente apavorado. Ah, os humanos... Então teve um acesso de bondade
e concedeu: - Tudo bem. Eu te dou uma chance, se você me der três boas
razões para não vir comigo desta vez. (Passava um brilho malicioso nos
olhos azuis e negros daquele Anjo?)
O homem aprumou-se, claro, ele sabia que ia dar certo, sempre fora bom
negociador. Mas quando abria a boca para começar sua ladainha de razões,
muito mais que três, ah sim, o Anjo ergueu um dedo imperioso: - Espera
aí. Três boas razões, mas... não vale dizer que seus negócios precisam
ser organizados, sua família não está garantida, sua mulher nem sabe
assinar cheque, seus filhos nada sabem da realidade. O que interessa é
você, você mesmo. Por que valeria a pena ainda te deixar por aqui algum
tempo?
Contaram-me essa fábula, que já narrei em outro livro, e nele quem abria
a porta era uma mulher. A objeção que o Anjo lhe fazia antes de ela
começar a recitar seus motivos era: "Não vale dizer que é porque marido
e filhos precisam de ....... Essa historinha fala do quanto valemos para nós mesmos, do quanto
valemos por nós mesmos, do que realmente sentimos e pensamos sobre nós.
Alguém me disse, tranqüilamente consciente de suas limitações e suas
conquistas: - Se eu hoje aos 61 encontrasse o rapaz idealista que fui
aos 18, não me envergonharia de apertar-lhe a mão, e o olharia nos
olhos sem ter de baixar os meus. Fez esse comentário sem laivo de
solenidade ou autoglorificação, antes bem- humorado. Aquela doce ironia
com relação a si mesmo que não é desprezo mas amor. Quantos de nós
podemos dizer isso? Com que argumentos persuadiríamos o anjo visitante
de ainda não nos levar motivo para refletir sobre a passagem do tempo e nosso crescimento como seres humanos. Em como podemos nos programar, resgatar, desestruturar,
reconstruir, boicotar, ou investir nossa cota de humanidade em um
projeto pessoal que faça algum sentido. Boa razão para pensar no valor
de ter valores; de avaliar a vida, não apenas correr pela sua
superfície. Interrompemos de vez em quando nossa atividade para isso -
ou nos atordoamos na agitação da mídia, da moda, do consumo, da corrida
pelo melhor salário, melhor lugar, melhor mesa no restaurante, melhor
modo de enganar o outro e subir, ainda que infimamente, no meu ínfimo
posto? "Ah, eu sigo meus valores." "Ensinei meus valores a meus filhos."
Usamos esse termo com muita facilidade. Que valores, quais valores?
Aqueles segundo os quais tento viver, expressos não num eventual sermão
ou palavreado, mas na maneira como vivo meu cotidiano em família, no
trabalho, com amigos, com meus amores? Tendo consciência de que
amando-nos mais poderíamos viver melhor, passaremos a trabalhar nisso.
Começamos tentando mudar de perspectiva: em lugar de enxergar só a
parede em frente, contemplar um pedaço que seja de paisagem. Passar de
vítima a autor de si mesmo é um bom movimento. Amadurecer auxilia na
tarefa de ver melhor a realidade, e não é uma catástrofe. Ler ajuda.
Abrir os olhos para o belo e o positivo ajuda. Amar e ser amado ajuda.
Terapia ajuda. No mínimo, ajudará a mantermos a cabeça à tona d'água em
lugar de nos afogarmos na autocomiseração. Reinventar-se inteiramente é
impossível: o contorno dessas margens, o terreno de que são feitas está
estabelecido.Trazemos uma chancela na alma - mas podemos redefinir seus limites. Quem sabe
mudamos as cores aqui, ali abrimos uma clareira e erguemos um abrigo.
Muito vai depender do quanto esperamos e acreditamos. De modo geral acho
que nos contentamos com muito pouco. Não falo em dinheiro, carro, casa,
roupa, jóias, viagens, que esses cobiçamos cada vez mais. Refiro-me aos
tesouros humanos: ética, lealdade, amizade, amor, sensualidade boa.
Nossas asas não são tão precárias que tenhamos de voar junto ao chão ou
apenas arrastar nosso peso. Nem somos tão covardes que não possamos
botar a cabeça fora do casulo e espiar: quem sabe no tempo do qual
fugimos nos aguarde, querendo ser colhido, algo chamado futuro,
confiança, projeto, vida. Ainda que a gente nem perceba, tudo é avanço e
transformação, acúmulo de experiência, dores do parto de nós mesmos,
cada dia refeito. Somos melhores do que imaginamos ser. Que no espelho
posto à nossa frente na hora de nascer a gente ao fim tenha projetado
mais do que um vazio, um nada, uma frustração: um rosto pleno, talvez
toda uma paisagem vista das varandas da nossa alma.
Sempre um Papo - Lya Luft
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19:11
Lya Luft fala sobre o começo da sua vida literária, em especial o seu processo de criação de poesias.
Desenhando no Fundo do Espelho - (Perdas & Ganhos)
perdaseganhos
13:58
Fruto de enganos ou de amor, nasço de minha própria contradição. O
contorno da boca, a forma da mão, o jeito de andar (sonhos e temores
incluídos) virão desses que me formaram. Mas o que eu traçar no espelho
há de se armar também segundo o meu desejo.
Terei meu par de asas cujo vôo se levanta desses que me dão a sombra
onde eu cresço - como, debaixo da árvore, um caule e sua flor.
A marca no flanco O mundo não tem sentido sem o nosso olhar que lhe
atribui forma, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. É
uma idéia assustadora: vivemos segundo o nosso ponto de vista, com ele
sobrevivemos ou naufragamos. Explodimos ou congelamos conforme nossa
abertura ou exclusão em relação ao mundo. E o que configura essa
perspectiva nossa? Ela se inaugura na infância, com suas carências nem
sempre explicáveis. Mesmo se fomos amados, sofremos de uma insegurança
elementar. Ainda que protegidos, seremos expostos a fatalidades e
imprevistos contra os quais nada nos defende. Temos de criar barreiras e
ao mesmo tempo lançar pontes com o que nos rodeia e o que ainda nos
espera. Toda essa trama de encontro e separação, terror e êxtase
encadeados, matéria da nossa existência, começa antes de nascermos.
Mas não somos apenas levados à revelia numa torrente. Somos
participantes. Nisso reside nossa possível tragédia: o desperdício de
uma vida com seus talentos truncados se não conseguirmos ver ou não
tivermos audácia para mudar para melhor - em qualquer momento, e em
qualquer idade. A elaboração desse "nós" iniciado na infância ergue as
paredes da maturidade e culmina no telhado da velhice, que é coroamento
embora em geral seja visto como deterioração. Nesse trabalho nossa mão
se junta às dos muitos que nos formam. Libertando-nos deles com o
amadurecimento, vamos montando uma figura: quem queremos ser, quem
pensamos que devemos ser - quem achamos que merecemos ser. Nessa casa, a
casa da alma e a casa do corpo, não seremos apenas fantoches que vagam
mas guerreiros que pensam e decidem. Constituir um ser humano, um nós, é
trabalho que não dá férias nem concede descanso: haverá paredes frágeis,
cálculos malfeitos, rachaduras. Quem sabe um pedaço que vai desabar. Mas
se abrirão também janelas para a paisagem e varandas para o sol. O que
se produzir - casa habitável ou ruína estéril - será a soma do que
pensaram e pensamos de nós, do quanto nos amaram e nos amamos, do que
nos fizeram pensar que valemos e do que fizemos para confirmar ou mudar
isso, esse selo, sinete, essa marca. Porém isso ainda seria simples
demais: nessa argamassa misturam-se boa-vontade e equívocos, sedução e
celebração, palavras amorosas e convites recusados. Participamos de uma
singular dança de máscaras sobrepostas, atrás das quais somos o objeto de nossa própria inquietação. Nem inteiramente vítimas nem totalmente senhores, cada momento de cada dia um desafio. Essa
ambigüidade nos dilacera e nos alimenta. Nos faz humanos. No prazo de
minha existência completarei o projeto que me foi proposto, aos poucos
tomando conta dessa tela e do pincel. Nos primeiros anos quase tudo foi
obra do ambiente em que nasci: família, escola, janelas pelas quais me
ensinaram a olhar, abrigo ou prisão, expectativa ou condenação. Logo não
terei mais a desculpa dos outros: pai e mãe amorosos ou hostis, bondosos
ou indiferentes, sofrendo de todas as naturais fraquezas da condição
humana que só quando adultos reconhecemos. Por fim havemos de constatar:
meu pai, minha mãe, eram apenas gente como eu. Fizeram o que sabiam, o
que podiam fazer. E eu... e eu? Marcados pelo que nos transmitem os
outros, seremos malabaristas em nosso próprio picadeiro. A rede
estendida por baixo é tecida de dois fios enlaçados: um nasce dos que
nos geraram e criaram; o outro vem de nós, da nossa crença ou nossa
esperança.
Muito escutei na infância: "Criança não pensa." Criança pensa. Mas faz
também algo mais importante, que amadurecendo desaprendemos: ela é.
Contemplando uma mancha na parede, um inseto no capim ou a revelação de
uma rosa, ela não está apenas olhando. Está sendo tudo isso em que se concentra. Ela é o besouro, a figura na parede, ela é a
flor, o vento e o silêncio. Da mesma forma ela é a frieza ou a angústia
dos adultos, sua superficialidade e frieza ou seu amor verdadeiro. E
precisa que às vezes a deixem quieta, sem exigir que a toda hora se
mexa, corra, fale, brinque, como se contemplação fosse doença. A criança
imersa em seu ambiente participa de um processo maior do que ela, no
qual desabrocha com pouca consciência. Porém ela tem algo mais valioso
do que consciência: tem intuição de tudo, tem o saber inocente.
Perderemos essa sabedoria da inocência na medida em que formos
domesticados, necessariamente encaixados na realidade em torno. Queiram
os deuses que nesse processo de domesticação a gente consiga preservar a
capacidade de sonhar. Pois a utopia será o terreno da nossa liberdade.
Ou acabaremos como focas treinadas cumprindo corretamente nossas
tarefas, mas soterrando aquilo que chamamos psique, eu, self, ou
simplesmente alma. Seremos roídos pela futilidade, tão mortal quanto a
pior doença: ataca a alma, deixando-a porosa e quebradiça como certos
esqueletos. A alma com osteoporose. Uma criança é sobretudo a sua
própria dimensão na qual o tempo, os aromas e as texturas, as presenças
e emoções são a sua realidade peculiar. Isso alguma vez tentei explicar
naquele tempo com minhas palavras hesitantes. Ninguém parecia entender -
ou não estavam muito interessados. Então eu armava tudo em
histórias que recitava para mim mesma como rezas de bruxas. Adulta,
acabei fazendo algo parecido ao escrever romances e outros livros - como
este. Compreendi que a aparente indiferença dos outros com minhas
imaginações infantis não era porque estivessem desinteressados ou eu não
soubesse explicar direito. Era porque o pensado e o real não se
distinguem nem cabem em palavras, e isso não se comunica.
Mais uma vez um livro meu se funda na idéia da família. Tenho
incansavelmente escrito sobre ela. Somos marcados pelo olhar profético
que nos lançaram em pequenos, como a maldição ou bênção das fadas nos
contos infantis. Os dramáticos ou trágicos personagens que inventei em
#meus romances foram frutos de famílias particularmente doentes onde
imperavam o desamor, a hipocrisia, o isolamento. As vezes eram inibidos
pela impossibilidade de manifestar afetos - que murchavam sem serem
exercidos. Se viver sozinho já é duro, viver em família pode ser onerado
e oneroso. Sofremos com a precariedade dos laços amorosos. Sofremos com
falta de dinheiro e tempo. Sofremos com a necessidade de suprir cada vez
mais os mandatos do consumo. Sofremos com o pouco espaço para diálogo,
ternura, solidariedade dentro da própria casa. Principalmente, não temos
tempo ou disponibilidade para o natural exercício da alegria do afeto.
Crianças, seja em que família for, serão seguramente -não principalmente
- um problema e uma tarefa. Para que nos signifiquem alegria nós as
teremos de querer e amar. Fazer da casa o ninho, não a jaula, começará
antes daquele primeiro toque e olhar sobre um filho que acaba de nascer.
A infância é o chão sobre o qual caminharemos o resto de nossos dias. Se
for esburacado demais vamos tropeçar mais, cair com mais facilidade e
quebrar a cara - o que pode até ser saudável, pois nos dará chance de
reconstruirmos nosso rosto. Quem sabe um rosto mais autêntico. Mas às
vezes ficaremos paralisados. Em plena maturidade sinto em mim a menina
assombrada com a beleza da chuva que chega sobre as árvores num jardim
de muitas décadas atrás. Tudo aquilo é para sempre meu, ainda que as
pessoas amadas partam, que a casa seja vendida, que eu já não seja
aquela. Para isso precisei abrir em mim um espaço onde abrigar as coisas
positivas, e desejei que fosse maior do que o local onde inevitavelmente
eu armazenaria as ruins. Os contornos desse eu que me propuseram
precisaram ser ampliados segundo o meu jeito, para que, dentro de todas
as minhas limitações, eu pudesse me abrir e acolher a vida em constante
transformação. Boa parte do tempo andamos meio às cegas, avançando por
erro e tentativa, tateando entre os desafios de cada dia. Sobre essa
terra firme ou areia traiçoeira teremos de erguer a nossa casa pessoal
feita em parte desses materiais brutos. Nem tudo pode ser programado. Os
cálculos têm resultados imprevistos. Misturamos em nós possibilidade de
sonhar e necessidade de rastejar, medo e fervor.
Talvez seja utopia, mas se eu não deixar que se embote a minha
sensibilidade, quando envelhecer, em vez de estar ressequida eu terei
chegado ao máximo exercício de meus afetos.
Tudo se complica porque trazemos nosso equipamento psíquico. Nascemos do
jeito que somos: algo em nós é imutável, nossa essência são paredes
difíceis de escalar, fortes demais para admitir aberturas. Essa batalha
será a de toda a nossa existência. As ferramentas para executarmos a
tarefa de viver podem ser precárias. Isso quer dizer: algumas pessoas
nascem mais frágeis que outras. Um bebê pode ser mais tristonho do que
seu irmão mais vital. Não é uma sentença, mas um aviso da madrasta
Natureza. O meu diminuto jardim me ensina diariamente que há plantas que
nascem fortes, outras malformadas; algumas são atingidas por doença ou
fatalidade em plena juventude; outras na velhice retorcida ainda
conseguem dar flor. Essa mesma condição é a nossa, com uma diferença
dramática: a gente pode pensar. Pode exercer uma relativa liberdade.
Dentro de certos limites, podemos intervir. Por isso, mais uma vez,
somos responsáveis, também por nós. Somos no mínimo co-responsáveis pelo
que fazemos com a bagagem que nos deram para esse trajeto entre nascer e
morrer. Carregamos muito peso inútil. Largamos no caminho objetos que
poderiam ser preciosos e recolhemos inutilidades. Corremos sem parar até
aquele fim temido, raramente nos sentamos para olhar em torno, avaliar o
caminho, e modificar ou manter nosso projeto pessoal.
Ou nem tínhamos desejos pessoais. Nos diluímos nas águas da sorte ou da
vontade alheia. Ficamos tênues demais para reagir. Somos os que se
encolhem nos cantos ou sentam na beirada da poltrona nos salões da vida.
Cada desperdício de um destino, um indivíduo que se proíbe de se
desenvolver naturalmente conforme suas capacidades ou até além delas, me
parece tão trágico e tão impor-tante quanto uma guerra. Pois é a derrota
de um ser humano - que vale tanto quanto milhares. Não devíamos escrever
artigos e fazer passeatas apenas contra a guerra, a violência, a
corrupção e a pobreza, mas proclamar a importância do que semearam em
nós, indivíduos. De como o devemos cuidar no tempo que nos foi dado para
essa jardinagem singular.
Se insisto na importância do olhar fundamental me conduzindo por um
caminho ou outro, não estarei atribuindo excessiva responsabilidade à
família primeira - aos pais? Penso que é assim. O amor primeiro, aquele
entre pais e filhos, vai determinar nossa expectativa de todos os amores
que teremos. Nossa vivência inicial vai marcar muitas de nossas
vivências futuras. Por isso, ter filhos e criá-los é cada dia gerar e
pari-los outra vez, sem descanso. Todo amor tem ou é crise, todo amor
exige paciência, bomhumor, tolerância e firmeza em doses sempre
incertas. Não há receitas nem escola para se ensinar a amar. Uma arena
de combates destrutivos me prepara tão mal para ser uma pessoa
inteira quanto o sossego artificial dos problemas ignorados. Lutas podem
ser positivas, competição faz crescer; amar éimpor e aceitar limites. A
relação familiar ocorre entre personalidades diferentes ou até
antagônicas, predeterminadas a viverem longo tempo entre quatro paredes
de uma mesma casa (sem possibilidade de divórcio se forem pais e
filhos), reunidos num caldeirão fervente de desencontros e desconsertos:
"Sempre senti que minha mãe não sabia bem o que fazer comigo!" "Meu
filho desde bebê parecia sempre desconfortável, até nos meus braços."
"Nuncaentendioquerealmentemeupaiqueriademim, era sempre um estranho."
"Qualquer coisa química, de pele, não funcionava entre minha mãe e eu, a
gente não gostava de se abraçar." "Vivemos sempre em universos
diferentes e distantes um do outro." "Nunca consegui agradar à minha
mãe, ela me criticava o tempo todo, e, mesmo agora que sou adulta e ela
bem idosa, continuamos no mesmo tom." "Meu pai parecia irritado só de me
olhar. Me cobrava tudo. Por mais que eu me esforçasse, sempre me sentia
seu devedor." Esse grupo familiar que não escolhemos e nos define tanto
pode ser um porto confiável de onde partimos e ao qual podemos retornar,
ainda que em pensamento. Aquele lugar que será sempre o meu lugar, mesmo
que eu já não viva nele. Mas é necessário cortar com o que ele
eventualmente tem de sufocante: pois pode ser também jaula, voragem,
fundo de poço. Se ficarmos demais presos, teremos de nos puxar pelos
próprios cabelos para outro espaço onde mesmo com susto e incertezas a
gente possa respirar e decidir o que fazer agora. Não podemos alterar o
passado. Dramas familiares podem ser raízes venenosas por baixo da terra
do convívio ou da alma. A lei do silêncio, do segredo obsessivo, pode
constituir grave perturbação. Mas podemos mudar nossa postura em relação
a tudo isso, ainda que em longos e dolorosos processos, que significarão
a diferença entre vida e morte. Posso me libertar. Posso me reprogramar
para discernir o que é para mim, neste momento, o "melhor" - ou o
possível. Meu conceito de mundo inibe minhas decisões e me consome e faz
encolher, ou me força a enfrentar alternativas. Nessa hora entrarão em
jogo a minha bagagem inata, o que eu tiver construído em mim, os
recursos aos quais posso apelar - e minha confiança de que posso
realizar isso. Não comandamos o destino das pessoas amadas, nem ao menos
podemos sofrer em lugar delas, mas ter filhos é ser gravemente
responsável. Não apenas por comida, escola, saúde, mas pela
personalidade desses filhos: mais complicado do que garantir uma
sobrevivência física saudável. Não significa que nós os formamos ou
deformamos como deuses onipotentes. Ao contrário, parte do drama de
paternidade e maternidade é não podermos viver por eles nem os preservar
de seus destinos. Fazer suas opções. Mas seguramente nossa maneira de
ser, de viver e de pensar quando ainda eram pequenos, quando ainda
pareciam "nossos", vai influir em tudo isso. Não defendo os pais
vítimas, que "por amor aos filhos" desistem de sua própria vida. Não
admiro a mãe sacrificial que anula sua personalidade com a mesma
alegação, para no
fundo culpabilizar os filhos e lhes cobrar o que lhe "devem» e até o que
"não devem". Mas será sobre nós, nossa esperança ou pessimismo, nosso
afeto ou frieza, que os filhos darão os primeiros de seus muitos passos.
E farão isso com seus filhos futuramente. Serão tão fundamentais para
eles quanto os pais de nossos pais foram na geração anterior. Atrás e à
frente de cada casal humano estende-se uma longa cadeia de erros e
acertos geradores de humanidade.
Nascemos com toda a carga de nossa genética física e psíquica. Mas não
somos apenas isso. Somos em parte resultado do que foram nossos pais.
Mas não somos apenas isso. A sociedade em que vivemos tem muitos olhos e
braços, que nos vigiam e interferem em nossa realidade. Um deles
chama-se opinião alheia. Não a de algumas pessoas amadas e respeitadas,
mas essa entidade informe, onipresente, quase onipotente, do "o que eles
vão pensar". Sem pedir licença, entra em nossa casa e nossa consciência,
limitando, podando. Fora das paredes domésticas, nossa inserção em uma
cultura tem uma força inaudita. Para superá-la precisamos de
discernimento, não propriamente um dote da juventude. Até chegarmos à
maturidade somos muito mais vulneráveis a essa pressão que, vindo de
fora, nos vara e lá se estabelece. Adolescente numa cidade do interior
onde o comportamento era ditado por essa criatura sem rosto - e de
tantos rostos -, muito me apoiou o que se ensinava em minha casa: a
opinião alheia realmente não interessava. Haveria umas
poucas pessoas às quais, por respeito e afeto, eu quereria prestar
contas - seriam meus referenciais em muita coisa. Muito do que nos
legaram pode ser re-programado: somos fruto mas não escravos, o olhar
primordial que nos saudou não é necessariamente uma sentença de morte.
Podemos -tarefa ingrata - fazer nossos acréscimos, escrever uma errata"
sobre o texto daquele prefácio de nós. Mas quem nos dará sugestões, quem
nos pode ajudar - se somos também pré-formados, pré-fabricados e
condicionados? Quem vai destramar esses fios, onde começamos nós e
termina a influência de tantos? Por isso somos buscantes, inquietos,
naturalmente insatisfeitos. Não condenados: somos livres para muitas
decisões. A partir de quando pude ter algum discernimento, o que fiz
para continuar sendo - ou melhorando - isto que agora sou? Como fui me
tornando um indivíduo que cultiva liberdade mas também respeito e
ternura pelo outro? Como me posicionei em relação a essa entidade
anônima e poderosa que se chama os outros, que pode ser amável e cruel?
Nossa visão imprecisa se define mais com o amadurecimento e a reflexão.
Forma-se o que chamamos personalidade, opinião própria, atitude. De mil
maneiras mostraremos o lugar que pretendemos ocupar: pela escolha das
nossas roupas, da profissão, do parceiro, de tudo. Sobretudo no
inconsciente eu me comportarei conforme a confiança, a suspeita, o
entusiasmo ou o ceticismo que me caracterizam. Dando aulas em uma
faculdade eu insistia com aqueles jovens: "Vocês são melhores do que
pensam. São mais inteligentes e mais capazes do que pensam, mais,
inclusive, do que nós adultos - pais e professores -, sem querer os
fazemos acreditar que são."
Ensinamos aos nossos filhos que são belos e bons, que são príncipes do
espírito.., fazemos com que se sintam uns coitados, uns estorvos, motivo
de preocupação e desgaste, de brigas e de arrependimento, lançados numa
aventura fadada ao fracasso? Criamos almas suba ltemas se podíamos criar
almas livres? A pergunta pode parecer cínica tendo em vista a
complexidade de nossas estruturas sociais e de oportunidades de
desenvolvimento, mas é preciso explicar. Sugerindo que nossos filhos
deviam sentir-se príncipes e princesas, é óbvio que não penso em luxo ou
posição social, muito menos arrogância, atributo dos medíocres.
Auto-estima é o que me vem à mente. Visão positiva, não cor-de-rosa ou
irreal, significando confiança. Capacidade de alegria, busca de
felicidade, crenças. O que de melhor posso fazer, como ser inteiro e
feliz, dentro de minhas possibilidades - que geralmente extrapolam
aquilo em que acreditamos ou nos fazem crer. Por isso eu dizia aos meus
alunos: vocês são melhores do que pensam. Auto-estima me lembra o que
dizia meu amado Erico Verissimo: "Eu me amo mas não me admiro." Tem a
ver com superar o confortável espírito de rebanho: formar e sustentar
opiniões próprias. Não com viver desde. nhosamente à margem, mas
enfrentar o risco de algum isolamento. Não vender a alma a qualquer
preço por qualquer companhia, mas selecionar os amados eleitos, os
amigos leais, os mestres e modelos sensatos. Até mesmo a profissão mais
adequada, a que nos dê mais prazer, se é que podemos fazer essa escolha:
temos de pegar qualquer atividade quando se trata de sobreviver.
Falar é fácil... Eu sei. Mudanças produzem ansiedade. Tentar sair do
emprego em que me pagam mal ou estou infeliz; enfrentar pai ou mãe
opressivos; romper um relacionamento amoroso que me diminui ou esmaga;
evitar um convívio em que um se anula para que o outro tripudie, num
processo de servidão que gera ressentimento e culpa. Sair do
estabelecido e habitual, mesmo ruim, é sempre perturbador. O desejo de
ser mais livre é forte, o medo de sair da situação conhecida, por pior
que ela seja, pode ser maior ainda. Para nos reorganizarmos precisamos
nos desmontar, refazer esse enigma nosso e descobrir qual é, afinal, o
projeto de cada um de nós.
"Mas a família não tem mais essa importância que você lhe atribui",
objetarão. "A gente é muito mais livre, os compromissos são mais
frouxos. Tudo mudou." Não: quase tudo mudou. A essência permanece a
mesma: a nossa essência. Vertiginosamente no século passado a sociedade
mudou, a família mudou. Transformou-se a cultura, evoluíram tecnologia e
ciências, tudo avança em uma velocidade inimaginável há 50 anos. Porém
as emoções humanas não mudaram. Nem ao menos somos originais. Nossos
deselos básicos hão de ser os mesmos: segurança, afeto, liberdade,
parceria; sentir-me integrado na sociedade ou na família, ser importante para meu grupo ou ao menos para uma pessoa - aquela que é o meu amor.
Não preciso ser um rei para ser importante, mas devo me sentir
apreciado. Isso me determinará tanto quanto o primeiro olhar que incidiu
sobre mim. Devo me considerar capaz e merecedor, sem megalomania, sem
alienação. Dentro do que está aí para que eu o escolha, o modifique, o
faça meu. Não tem a ver com dinheiro, posição social, nem com soberba,
mas com o modo como somos avaliados - por nos e pelos que amamos. Minhas
ações e desistências nascem desse conceito primeiro. Não importa se sou
operário, doméstica, motorista, camponês ou alto executivo, atriz
vitoriosa ou obscura balconista: gosto de mim na medida em que acredito
na minha dignidade, quero me expandir conforme meu valor. E também
segundo acho que vale a pena esse salto, esse crescimento, essa entrega.
Depende de minha confiança. Isso tudo não se instalou em nós através de
palavras ensaiadas para ocasiões especiais ou crises. Estrutura-se
subliminarmente no convívio diário, paira no ambiente, brilha na pele.
Volto à família: um ambiente duro em casa não prepara para enfrentar a
dureza da vida, como alguns preconizam. Ao contrário: para saber
defender-me no terreno violento em que vivemos preciso ter uma sólida
raiz de afetos. Esse é o alimento mais importante que me podem dar desde
o berço. Ele nutre minha alma, e é com ela que conquistarei o meu lugar:
o meu lugar na minha casa, no meu casamento, na minha família, na minha
sala de aula, no meu escritório, na minha fábrica, na minha rua. Mas tem
de ser acima de tudo isso o meu lugar diante de mim mesmo. Que não seja
subalterno.
Se achar que não valho nada, serei nada. Deixarei que outros falem,
decidam, vivam por mim. Porém, se acreditar que apesar dos naturais
limites e do medo todo eu mereço uma dose de coisas positivas, vou lutar
por isso. Vou até permitir que os outros me amem.
Cestos, silêncios, palavras: criaturas vivas que na sombra do
inconsciente armam laços e desarmam vidas. Com elas construímos pontes
em cima das águas turvas ou cavamos o fosso dos mal-entendidos. Uma boa
parcela dos sofrimentos entre pessoas nasce do desencontro e da
incomunicabilidade. "Eu sempre tive certeza de que nossos pais preferiam
você." "Mas como! Eu é que sempre tive certeza de que gostavam muito
mais de você." "Você nunca disse que me amava, eu até achava que não era
seu filho, que era filho adotado!" "Mas como! Eu te cuidei, te protegi,
te ensinei, te dei tudo o que podia... me consumi trabalhando mais do
que devia para que não te faltasse nada... lavei suas roupas, cuidei de
você nas doenças..." "Mas aquela vez você disse... você fez... você
parecia..." "Mas não era nada disso!... você não entendeu direito... eu
não soube me expressar bem." Se a ferida for demais séria, diálogos ou
explicações como esses não vão curar o que está gravado a fogo. Não
basta uma noite de Natal ou um almoço em família para desfazê-lo. Alguém
me disse: "Mas é assim mesmo, a gente não se entende. Somos todos uns
pobres-diabos, todos complicados, todos inseguros e infelizes: como
passar algo de bom para os filhos?" Não concordo. Não acho que sejamos
pobres-diabos, nem que todos somos infelizes. Somos complexos, isso sim:
intrigantes, vulneráveis e passíveis de engano e erro. Somos também
maravilhosas máquinas de afeto e idéias, de sonho, de produção da arte
que transporta para além do trivial. Capazes de instaurar o mais simples
cotidiano que dá segurança e aconchego. Porém o amor - como o desamor -
é uma tarefa trabalhosa. Que nos produz e nos recria a cada hora. Uma
personalidade é um jogo de armar de emoções enoveladas, com peças
difíceis de ajustar.
Sempre me disseram que eu era feia", contou-me alguém, e me convenci de
que não merecia ser apreciada, ser escolhida - em resumo, ser feliz.»
Outra pessoa me disse: "Eu era gordinha, mas meu pai sempre ressaltava
que eu tinha olhos bonitos, era inteligente, era amada. Sem dizer
expressamente, ele me ensinou que o físico deve ser cuidado mas não é
tudo, nem deve determinar o meu destino. Hoje, se alguém não me amasse
porque não estou dentro dos padrões da moda, ele não me atrairia pelo
seu modo de pensar." A família nos fornece os primeiros critérios que
podemos seguir ou infringir. Transgredi-los pode ser a salvação em
muitos casos, se nos esmagarem; mas que difícil, quase heróica tarefa.
Porém ou nos libertamos até onde for possível, ou estarão ali atrás da
porta a qualquer momento, mãos na cintura, mostrando a cara e
pronunciando sua sentença. Que não será liberdade nem absolvição.
Ensinaram-me desde cedo que minha liberdade era essencial, que se ligava
à minha dignidade, e que eu seria responsável por minhas escolhas. Mais:
eu sabia que mesmo se tudo desse errado alguém sempre estaria ali para
mim. Esse se tornou para mim o conceito básico de família: aquele grupo,
ou aquela pessoa que, mesmo se não me compreende e às vezes nem aprova,
me respeitará e amará como sou - ou como consigo ser. Em qualquer
estágio esse sentimento básico de aprovação faz falta: sim, eu mereço
viver bem. Mais tarde ainda pode-se desenvolver e reforçar, com
experiências positivas, esforço pessoal, e uma reeducação sentimental, o
nível de nossa auto-estima. Autoconhecimento, um dos objetivos da
terapia, apura a visão e leva a entender melhor, a conviver com feridas,
a sobrenadar mesmo quando a onda é forte e feia. Sentir-se valorizado
por alguém, amigo, amor, por um grupo, pode ser definitivo. Mas nem tudo
se resolve assim. Algo elementar pode ter sido mais deletério do que
podíamos suportar. Feridos de morte no início, passaremos o tempo
espreitando para os lados: quem agora vai me ferir, de onde virá o
próximo golpe, a próxima traição? Crescendo, amadurecendo e
envelhecendo: com que olhar nos contemplamos? Paramos eventualmente para
olhar e questionar?
Nossa maneira de ver e viver reflete - e repete - aquela com que fomos
vistos quando éramos somente reflexo no espelho, ou vamos formando uma
postura própria com todo o esforço e dor que isso possa exigir? Sendo
contraditórios, somamos hesitação e medo com audácia e fervor. Podemos
nos esconder no quarto escuro ou virar a cara para o sol, alternar as
duas posturas, gastar e consumir, amealhar e multiplicar. Somos tudo
isso. Nossa anistia ou nossa aniquilação. Não é só culpa dos outros se
ficamos truncados. Em cada estágio podemos colocar algum traço, algum
ponto, alguma cor no projeto de quem pretendemos ser. Podemos ser
obrigados a usar disfarces, mas no centro de nós mesmos ressoa o nome
que nos dermos: a nossa chancela.
contorno da boca, a forma da mão, o jeito de andar (sonhos e temores
incluídos) virão desses que me formaram. Mas o que eu traçar no espelho
há de se armar também segundo o meu desejo.
Terei meu par de asas cujo vôo se levanta desses que me dão a sombra
onde eu cresço - como, debaixo da árvore, um caule e sua flor.
A marca no flanco O mundo não tem sentido sem o nosso olhar que lhe
atribui forma, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. É
uma idéia assustadora: vivemos segundo o nosso ponto de vista, com ele
sobrevivemos ou naufragamos. Explodimos ou congelamos conforme nossa
abertura ou exclusão em relação ao mundo. E o que configura essa
perspectiva nossa? Ela se inaugura na infância, com suas carências nem
sempre explicáveis. Mesmo se fomos amados, sofremos de uma insegurança
elementar. Ainda que protegidos, seremos expostos a fatalidades e
imprevistos contra os quais nada nos defende. Temos de criar barreiras e
ao mesmo tempo lançar pontes com o que nos rodeia e o que ainda nos
espera. Toda essa trama de encontro e separação, terror e êxtase
encadeados, matéria da nossa existência, começa antes de nascermos.
Mas não somos apenas levados à revelia numa torrente. Somos
participantes. Nisso reside nossa possível tragédia: o desperdício de
uma vida com seus talentos truncados se não conseguirmos ver ou não
tivermos audácia para mudar para melhor - em qualquer momento, e em
qualquer idade. A elaboração desse "nós" iniciado na infância ergue as
paredes da maturidade e culmina no telhado da velhice, que é coroamento
embora em geral seja visto como deterioração. Nesse trabalho nossa mão
se junta às dos muitos que nos formam. Libertando-nos deles com o
amadurecimento, vamos montando uma figura: quem queremos ser, quem
pensamos que devemos ser - quem achamos que merecemos ser. Nessa casa, a
casa da alma e a casa do corpo, não seremos apenas fantoches que vagam
mas guerreiros que pensam e decidem. Constituir um ser humano, um nós, é
trabalho que não dá férias nem concede descanso: haverá paredes frágeis,
cálculos malfeitos, rachaduras. Quem sabe um pedaço que vai desabar. Mas
se abrirão também janelas para a paisagem e varandas para o sol. O que
se produzir - casa habitável ou ruína estéril - será a soma do que
pensaram e pensamos de nós, do quanto nos amaram e nos amamos, do que
nos fizeram pensar que valemos e do que fizemos para confirmar ou mudar
isso, esse selo, sinete, essa marca. Porém isso ainda seria simples
demais: nessa argamassa misturam-se boa-vontade e equívocos, sedução e
celebração, palavras amorosas e convites recusados. Participamos de uma
singular dança de máscaras sobrepostas, atrás das quais somos o objeto de nossa própria inquietação. Nem inteiramente vítimas nem totalmente senhores, cada momento de cada dia um desafio. Essa
ambigüidade nos dilacera e nos alimenta. Nos faz humanos. No prazo de
minha existência completarei o projeto que me foi proposto, aos poucos
tomando conta dessa tela e do pincel. Nos primeiros anos quase tudo foi
obra do ambiente em que nasci: família, escola, janelas pelas quais me
ensinaram a olhar, abrigo ou prisão, expectativa ou condenação. Logo não
terei mais a desculpa dos outros: pai e mãe amorosos ou hostis, bondosos
ou indiferentes, sofrendo de todas as naturais fraquezas da condição
humana que só quando adultos reconhecemos. Por fim havemos de constatar:
meu pai, minha mãe, eram apenas gente como eu. Fizeram o que sabiam, o
que podiam fazer. E eu... e eu? Marcados pelo que nos transmitem os
outros, seremos malabaristas em nosso próprio picadeiro. A rede
estendida por baixo é tecida de dois fios enlaçados: um nasce dos que
nos geraram e criaram; o outro vem de nós, da nossa crença ou nossa
esperança.
Muito escutei na infância: "Criança não pensa." Criança pensa. Mas faz
também algo mais importante, que amadurecendo desaprendemos: ela é.
Contemplando uma mancha na parede, um inseto no capim ou a revelação de
uma rosa, ela não está apenas olhando. Está sendo tudo isso em que se concentra. Ela é o besouro, a figura na parede, ela é a
flor, o vento e o silêncio. Da mesma forma ela é a frieza ou a angústia
dos adultos, sua superficialidade e frieza ou seu amor verdadeiro. E
precisa que às vezes a deixem quieta, sem exigir que a toda hora se
mexa, corra, fale, brinque, como se contemplação fosse doença. A criança
imersa em seu ambiente participa de um processo maior do que ela, no
qual desabrocha com pouca consciência. Porém ela tem algo mais valioso
do que consciência: tem intuição de tudo, tem o saber inocente.
Perderemos essa sabedoria da inocência na medida em que formos
domesticados, necessariamente encaixados na realidade em torno. Queiram
os deuses que nesse processo de domesticação a gente consiga preservar a
capacidade de sonhar. Pois a utopia será o terreno da nossa liberdade.
Ou acabaremos como focas treinadas cumprindo corretamente nossas
tarefas, mas soterrando aquilo que chamamos psique, eu, self, ou
simplesmente alma. Seremos roídos pela futilidade, tão mortal quanto a
pior doença: ataca a alma, deixando-a porosa e quebradiça como certos
esqueletos. A alma com osteoporose. Uma criança é sobretudo a sua
própria dimensão na qual o tempo, os aromas e as texturas, as presenças
e emoções são a sua realidade peculiar. Isso alguma vez tentei explicar
naquele tempo com minhas palavras hesitantes. Ninguém parecia entender -
ou não estavam muito interessados. Então eu armava tudo em
histórias que recitava para mim mesma como rezas de bruxas. Adulta,
acabei fazendo algo parecido ao escrever romances e outros livros - como
este. Compreendi que a aparente indiferença dos outros com minhas
imaginações infantis não era porque estivessem desinteressados ou eu não
soubesse explicar direito. Era porque o pensado e o real não se
distinguem nem cabem em palavras, e isso não se comunica.
Mais uma vez um livro meu se funda na idéia da família. Tenho
incansavelmente escrito sobre ela. Somos marcados pelo olhar profético
que nos lançaram em pequenos, como a maldição ou bênção das fadas nos
contos infantis. Os dramáticos ou trágicos personagens que inventei em
#meus romances foram frutos de famílias particularmente doentes onde
imperavam o desamor, a hipocrisia, o isolamento. As vezes eram inibidos
pela impossibilidade de manifestar afetos - que murchavam sem serem
exercidos. Se viver sozinho já é duro, viver em família pode ser onerado
e oneroso. Sofremos com a precariedade dos laços amorosos. Sofremos com
falta de dinheiro e tempo. Sofremos com a necessidade de suprir cada vez
mais os mandatos do consumo. Sofremos com o pouco espaço para diálogo,
ternura, solidariedade dentro da própria casa. Principalmente, não temos
tempo ou disponibilidade para o natural exercício da alegria do afeto.
Crianças, seja em que família for, serão seguramente -não principalmente
- um problema e uma tarefa. Para que nos signifiquem alegria nós as
teremos de querer e amar. Fazer da casa o ninho, não a jaula, começará
antes daquele primeiro toque e olhar sobre um filho que acaba de nascer.
A infância é o chão sobre o qual caminharemos o resto de nossos dias. Se
for esburacado demais vamos tropeçar mais, cair com mais facilidade e
quebrar a cara - o que pode até ser saudável, pois nos dará chance de
reconstruirmos nosso rosto. Quem sabe um rosto mais autêntico. Mas às
vezes ficaremos paralisados. Em plena maturidade sinto em mim a menina
assombrada com a beleza da chuva que chega sobre as árvores num jardim
de muitas décadas atrás. Tudo aquilo é para sempre meu, ainda que as
pessoas amadas partam, que a casa seja vendida, que eu já não seja
aquela. Para isso precisei abrir em mim um espaço onde abrigar as coisas
positivas, e desejei que fosse maior do que o local onde inevitavelmente
eu armazenaria as ruins. Os contornos desse eu que me propuseram
precisaram ser ampliados segundo o meu jeito, para que, dentro de todas
as minhas limitações, eu pudesse me abrir e acolher a vida em constante
transformação. Boa parte do tempo andamos meio às cegas, avançando por
erro e tentativa, tateando entre os desafios de cada dia. Sobre essa
terra firme ou areia traiçoeira teremos de erguer a nossa casa pessoal
feita em parte desses materiais brutos. Nem tudo pode ser programado. Os
cálculos têm resultados imprevistos. Misturamos em nós possibilidade de
sonhar e necessidade de rastejar, medo e fervor.
Talvez seja utopia, mas se eu não deixar que se embote a minha
sensibilidade, quando envelhecer, em vez de estar ressequida eu terei
chegado ao máximo exercício de meus afetos.
Tudo se complica porque trazemos nosso equipamento psíquico. Nascemos do
jeito que somos: algo em nós é imutável, nossa essência são paredes
difíceis de escalar, fortes demais para admitir aberturas. Essa batalha
será a de toda a nossa existência. As ferramentas para executarmos a
tarefa de viver podem ser precárias. Isso quer dizer: algumas pessoas
nascem mais frágeis que outras. Um bebê pode ser mais tristonho do que
seu irmão mais vital. Não é uma sentença, mas um aviso da madrasta
Natureza. O meu diminuto jardim me ensina diariamente que há plantas que
nascem fortes, outras malformadas; algumas são atingidas por doença ou
fatalidade em plena juventude; outras na velhice retorcida ainda
conseguem dar flor. Essa mesma condição é a nossa, com uma diferença
dramática: a gente pode pensar. Pode exercer uma relativa liberdade.
Dentro de certos limites, podemos intervir. Por isso, mais uma vez,
somos responsáveis, também por nós. Somos no mínimo co-responsáveis pelo
que fazemos com a bagagem que nos deram para esse trajeto entre nascer e
morrer. Carregamos muito peso inútil. Largamos no caminho objetos que
poderiam ser preciosos e recolhemos inutilidades. Corremos sem parar até
aquele fim temido, raramente nos sentamos para olhar em torno, avaliar o
caminho, e modificar ou manter nosso projeto pessoal.
Ou nem tínhamos desejos pessoais. Nos diluímos nas águas da sorte ou da
vontade alheia. Ficamos tênues demais para reagir. Somos os que se
encolhem nos cantos ou sentam na beirada da poltrona nos salões da vida.
Cada desperdício de um destino, um indivíduo que se proíbe de se
desenvolver naturalmente conforme suas capacidades ou até além delas, me
parece tão trágico e tão impor-tante quanto uma guerra. Pois é a derrota
de um ser humano - que vale tanto quanto milhares. Não devíamos escrever
artigos e fazer passeatas apenas contra a guerra, a violência, a
corrupção e a pobreza, mas proclamar a importância do que semearam em
nós, indivíduos. De como o devemos cuidar no tempo que nos foi dado para
essa jardinagem singular.
Se insisto na importância do olhar fundamental me conduzindo por um
caminho ou outro, não estarei atribuindo excessiva responsabilidade à
família primeira - aos pais? Penso que é assim. O amor primeiro, aquele
entre pais e filhos, vai determinar nossa expectativa de todos os amores
que teremos. Nossa vivência inicial vai marcar muitas de nossas
vivências futuras. Por isso, ter filhos e criá-los é cada dia gerar e
pari-los outra vez, sem descanso. Todo amor tem ou é crise, todo amor
exige paciência, bomhumor, tolerância e firmeza em doses sempre
incertas. Não há receitas nem escola para se ensinar a amar. Uma arena
de combates destrutivos me prepara tão mal para ser uma pessoa
inteira quanto o sossego artificial dos problemas ignorados. Lutas podem
ser positivas, competição faz crescer; amar éimpor e aceitar limites. A
relação familiar ocorre entre personalidades diferentes ou até
antagônicas, predeterminadas a viverem longo tempo entre quatro paredes
de uma mesma casa (sem possibilidade de divórcio se forem pais e
filhos), reunidos num caldeirão fervente de desencontros e desconsertos:
"Sempre senti que minha mãe não sabia bem o que fazer comigo!" "Meu
filho desde bebê parecia sempre desconfortável, até nos meus braços."
"Nuncaentendioquerealmentemeupaiqueriademim, era sempre um estranho."
"Qualquer coisa química, de pele, não funcionava entre minha mãe e eu, a
gente não gostava de se abraçar." "Vivemos sempre em universos
diferentes e distantes um do outro." "Nunca consegui agradar à minha
mãe, ela me criticava o tempo todo, e, mesmo agora que sou adulta e ela
bem idosa, continuamos no mesmo tom." "Meu pai parecia irritado só de me
olhar. Me cobrava tudo. Por mais que eu me esforçasse, sempre me sentia
seu devedor." Esse grupo familiar que não escolhemos e nos define tanto
pode ser um porto confiável de onde partimos e ao qual podemos retornar,
ainda que em pensamento. Aquele lugar que será sempre o meu lugar, mesmo
que eu já não viva nele. Mas é necessário cortar com o que ele
eventualmente tem de sufocante: pois pode ser também jaula, voragem,
fundo de poço. Se ficarmos demais presos, teremos de nos puxar pelos
próprios cabelos para outro espaço onde mesmo com susto e incertezas a
gente possa respirar e decidir o que fazer agora. Não podemos alterar o
passado. Dramas familiares podem ser raízes venenosas por baixo da terra
do convívio ou da alma. A lei do silêncio, do segredo obsessivo, pode
constituir grave perturbação. Mas podemos mudar nossa postura em relação
a tudo isso, ainda que em longos e dolorosos processos, que significarão
a diferença entre vida e morte. Posso me libertar. Posso me reprogramar
para discernir o que é para mim, neste momento, o "melhor" - ou o
possível. Meu conceito de mundo inibe minhas decisões e me consome e faz
encolher, ou me força a enfrentar alternativas. Nessa hora entrarão em
jogo a minha bagagem inata, o que eu tiver construído em mim, os
recursos aos quais posso apelar - e minha confiança de que posso
realizar isso. Não comandamos o destino das pessoas amadas, nem ao menos
podemos sofrer em lugar delas, mas ter filhos é ser gravemente
responsável. Não apenas por comida, escola, saúde, mas pela
personalidade desses filhos: mais complicado do que garantir uma
sobrevivência física saudável. Não significa que nós os formamos ou
deformamos como deuses onipotentes. Ao contrário, parte do drama de
paternidade e maternidade é não podermos viver por eles nem os preservar
de seus destinos. Fazer suas opções. Mas seguramente nossa maneira de
ser, de viver e de pensar quando ainda eram pequenos, quando ainda
pareciam "nossos", vai influir em tudo isso. Não defendo os pais
vítimas, que "por amor aos filhos" desistem de sua própria vida. Não
admiro a mãe sacrificial que anula sua personalidade com a mesma
alegação, para no
fundo culpabilizar os filhos e lhes cobrar o que lhe "devem» e até o que
"não devem". Mas será sobre nós, nossa esperança ou pessimismo, nosso
afeto ou frieza, que os filhos darão os primeiros de seus muitos passos.
E farão isso com seus filhos futuramente. Serão tão fundamentais para
eles quanto os pais de nossos pais foram na geração anterior. Atrás e à
frente de cada casal humano estende-se uma longa cadeia de erros e
acertos geradores de humanidade.
Nascemos com toda a carga de nossa genética física e psíquica. Mas não
somos apenas isso. Somos em parte resultado do que foram nossos pais.
Mas não somos apenas isso. A sociedade em que vivemos tem muitos olhos e
braços, que nos vigiam e interferem em nossa realidade. Um deles
chama-se opinião alheia. Não a de algumas pessoas amadas e respeitadas,
mas essa entidade informe, onipresente, quase onipotente, do "o que eles
vão pensar". Sem pedir licença, entra em nossa casa e nossa consciência,
limitando, podando. Fora das paredes domésticas, nossa inserção em uma
cultura tem uma força inaudita. Para superá-la precisamos de
discernimento, não propriamente um dote da juventude. Até chegarmos à
maturidade somos muito mais vulneráveis a essa pressão que, vindo de
fora, nos vara e lá se estabelece. Adolescente numa cidade do interior
onde o comportamento era ditado por essa criatura sem rosto - e de
tantos rostos -, muito me apoiou o que se ensinava em minha casa: a
opinião alheia realmente não interessava. Haveria umas
poucas pessoas às quais, por respeito e afeto, eu quereria prestar
contas - seriam meus referenciais em muita coisa. Muito do que nos
legaram pode ser re-programado: somos fruto mas não escravos, o olhar
primordial que nos saudou não é necessariamente uma sentença de morte.
Podemos -tarefa ingrata - fazer nossos acréscimos, escrever uma errata"
sobre o texto daquele prefácio de nós. Mas quem nos dará sugestões, quem
nos pode ajudar - se somos também pré-formados, pré-fabricados e
condicionados? Quem vai destramar esses fios, onde começamos nós e
termina a influência de tantos? Por isso somos buscantes, inquietos,
naturalmente insatisfeitos. Não condenados: somos livres para muitas
decisões. A partir de quando pude ter algum discernimento, o que fiz
para continuar sendo - ou melhorando - isto que agora sou? Como fui me
tornando um indivíduo que cultiva liberdade mas também respeito e
ternura pelo outro? Como me posicionei em relação a essa entidade
anônima e poderosa que se chama os outros, que pode ser amável e cruel?
Nossa visão imprecisa se define mais com o amadurecimento e a reflexão.
Forma-se o que chamamos personalidade, opinião própria, atitude. De mil
maneiras mostraremos o lugar que pretendemos ocupar: pela escolha das
nossas roupas, da profissão, do parceiro, de tudo. Sobretudo no
inconsciente eu me comportarei conforme a confiança, a suspeita, o
entusiasmo ou o ceticismo que me caracterizam. Dando aulas em uma
faculdade eu insistia com aqueles jovens: "Vocês são melhores do que
pensam. São mais inteligentes e mais capazes do que pensam, mais,
inclusive, do que nós adultos - pais e professores -, sem querer os
fazemos acreditar que são."
Ensinamos aos nossos filhos que são belos e bons, que são príncipes do
espírito.., fazemos com que se sintam uns coitados, uns estorvos, motivo
de preocupação e desgaste, de brigas e de arrependimento, lançados numa
aventura fadada ao fracasso? Criamos almas suba ltemas se podíamos criar
almas livres? A pergunta pode parecer cínica tendo em vista a
complexidade de nossas estruturas sociais e de oportunidades de
desenvolvimento, mas é preciso explicar. Sugerindo que nossos filhos
deviam sentir-se príncipes e princesas, é óbvio que não penso em luxo ou
posição social, muito menos arrogância, atributo dos medíocres.
Auto-estima é o que me vem à mente. Visão positiva, não cor-de-rosa ou
irreal, significando confiança. Capacidade de alegria, busca de
felicidade, crenças. O que de melhor posso fazer, como ser inteiro e
feliz, dentro de minhas possibilidades - que geralmente extrapolam
aquilo em que acreditamos ou nos fazem crer. Por isso eu dizia aos meus
alunos: vocês são melhores do que pensam. Auto-estima me lembra o que
dizia meu amado Erico Verissimo: "Eu me amo mas não me admiro." Tem a
ver com superar o confortável espírito de rebanho: formar e sustentar
opiniões próprias. Não com viver desde. nhosamente à margem, mas
enfrentar o risco de algum isolamento. Não vender a alma a qualquer
preço por qualquer companhia, mas selecionar os amados eleitos, os
amigos leais, os mestres e modelos sensatos. Até mesmo a profissão mais
adequada, a que nos dê mais prazer, se é que podemos fazer essa escolha:
temos de pegar qualquer atividade quando se trata de sobreviver.
Falar é fácil... Eu sei. Mudanças produzem ansiedade. Tentar sair do
emprego em que me pagam mal ou estou infeliz; enfrentar pai ou mãe
opressivos; romper um relacionamento amoroso que me diminui ou esmaga;
evitar um convívio em que um se anula para que o outro tripudie, num
processo de servidão que gera ressentimento e culpa. Sair do
estabelecido e habitual, mesmo ruim, é sempre perturbador. O desejo de
ser mais livre é forte, o medo de sair da situação conhecida, por pior
que ela seja, pode ser maior ainda. Para nos reorganizarmos precisamos
nos desmontar, refazer esse enigma nosso e descobrir qual é, afinal, o
projeto de cada um de nós.
"Mas a família não tem mais essa importância que você lhe atribui",
objetarão. "A gente é muito mais livre, os compromissos são mais
frouxos. Tudo mudou." Não: quase tudo mudou. A essência permanece a
mesma: a nossa essência. Vertiginosamente no século passado a sociedade
mudou, a família mudou. Transformou-se a cultura, evoluíram tecnologia e
ciências, tudo avança em uma velocidade inimaginável há 50 anos. Porém
as emoções humanas não mudaram. Nem ao menos somos originais. Nossos
deselos básicos hão de ser os mesmos: segurança, afeto, liberdade,
parceria; sentir-me integrado na sociedade ou na família, ser importante para meu grupo ou ao menos para uma pessoa - aquela que é o meu amor.
Não preciso ser um rei para ser importante, mas devo me sentir
apreciado. Isso me determinará tanto quanto o primeiro olhar que incidiu
sobre mim. Devo me considerar capaz e merecedor, sem megalomania, sem
alienação. Dentro do que está aí para que eu o escolha, o modifique, o
faça meu. Não tem a ver com dinheiro, posição social, nem com soberba,
mas com o modo como somos avaliados - por nos e pelos que amamos. Minhas
ações e desistências nascem desse conceito primeiro. Não importa se sou
operário, doméstica, motorista, camponês ou alto executivo, atriz
vitoriosa ou obscura balconista: gosto de mim na medida em que acredito
na minha dignidade, quero me expandir conforme meu valor. E também
segundo acho que vale a pena esse salto, esse crescimento, essa entrega.
Depende de minha confiança. Isso tudo não se instalou em nós através de
palavras ensaiadas para ocasiões especiais ou crises. Estrutura-se
subliminarmente no convívio diário, paira no ambiente, brilha na pele.
Volto à família: um ambiente duro em casa não prepara para enfrentar a
dureza da vida, como alguns preconizam. Ao contrário: para saber
defender-me no terreno violento em que vivemos preciso ter uma sólida
raiz de afetos. Esse é o alimento mais importante que me podem dar desde
o berço. Ele nutre minha alma, e é com ela que conquistarei o meu lugar:
o meu lugar na minha casa, no meu casamento, na minha família, na minha
sala de aula, no meu escritório, na minha fábrica, na minha rua. Mas tem
de ser acima de tudo isso o meu lugar diante de mim mesmo. Que não seja
subalterno.
Se achar que não valho nada, serei nada. Deixarei que outros falem,
decidam, vivam por mim. Porém, se acreditar que apesar dos naturais
limites e do medo todo eu mereço uma dose de coisas positivas, vou lutar
por isso. Vou até permitir que os outros me amem.
Cestos, silêncios, palavras: criaturas vivas que na sombra do
inconsciente armam laços e desarmam vidas. Com elas construímos pontes
em cima das águas turvas ou cavamos o fosso dos mal-entendidos. Uma boa
parcela dos sofrimentos entre pessoas nasce do desencontro e da
incomunicabilidade. "Eu sempre tive certeza de que nossos pais preferiam
você." "Mas como! Eu é que sempre tive certeza de que gostavam muito
mais de você." "Você nunca disse que me amava, eu até achava que não era
seu filho, que era filho adotado!" "Mas como! Eu te cuidei, te protegi,
te ensinei, te dei tudo o que podia... me consumi trabalhando mais do
que devia para que não te faltasse nada... lavei suas roupas, cuidei de
você nas doenças..." "Mas aquela vez você disse... você fez... você
parecia..." "Mas não era nada disso!... você não entendeu direito... eu
não soube me expressar bem." Se a ferida for demais séria, diálogos ou
explicações como esses não vão curar o que está gravado a fogo. Não
basta uma noite de Natal ou um almoço em família para desfazê-lo. Alguém
me disse: "Mas é assim mesmo, a gente não se entende. Somos todos uns
pobres-diabos, todos complicados, todos inseguros e infelizes: como
passar algo de bom para os filhos?" Não concordo. Não acho que sejamos
pobres-diabos, nem que todos somos infelizes. Somos complexos, isso sim:
intrigantes, vulneráveis e passíveis de engano e erro. Somos também
maravilhosas máquinas de afeto e idéias, de sonho, de produção da arte
que transporta para além do trivial. Capazes de instaurar o mais simples
cotidiano que dá segurança e aconchego. Porém o amor - como o desamor -
é uma tarefa trabalhosa. Que nos produz e nos recria a cada hora. Uma
personalidade é um jogo de armar de emoções enoveladas, com peças
difíceis de ajustar.
Sempre me disseram que eu era feia", contou-me alguém, e me convenci de
que não merecia ser apreciada, ser escolhida - em resumo, ser feliz.»
Outra pessoa me disse: "Eu era gordinha, mas meu pai sempre ressaltava
que eu tinha olhos bonitos, era inteligente, era amada. Sem dizer
expressamente, ele me ensinou que o físico deve ser cuidado mas não é
tudo, nem deve determinar o meu destino. Hoje, se alguém não me amasse
porque não estou dentro dos padrões da moda, ele não me atrairia pelo
seu modo de pensar." A família nos fornece os primeiros critérios que
podemos seguir ou infringir. Transgredi-los pode ser a salvação em
muitos casos, se nos esmagarem; mas que difícil, quase heróica tarefa.
Porém ou nos libertamos até onde for possível, ou estarão ali atrás da
porta a qualquer momento, mãos na cintura, mostrando a cara e
pronunciando sua sentença. Que não será liberdade nem absolvição.
Ensinaram-me desde cedo que minha liberdade era essencial, que se ligava
à minha dignidade, e que eu seria responsável por minhas escolhas. Mais:
eu sabia que mesmo se tudo desse errado alguém sempre estaria ali para
mim. Esse se tornou para mim o conceito básico de família: aquele grupo,
ou aquela pessoa que, mesmo se não me compreende e às vezes nem aprova,
me respeitará e amará como sou - ou como consigo ser. Em qualquer
estágio esse sentimento básico de aprovação faz falta: sim, eu mereço
viver bem. Mais tarde ainda pode-se desenvolver e reforçar, com
experiências positivas, esforço pessoal, e uma reeducação sentimental, o
nível de nossa auto-estima. Autoconhecimento, um dos objetivos da
terapia, apura a visão e leva a entender melhor, a conviver com feridas,
a sobrenadar mesmo quando a onda é forte e feia. Sentir-se valorizado
por alguém, amigo, amor, por um grupo, pode ser definitivo. Mas nem tudo
se resolve assim. Algo elementar pode ter sido mais deletério do que
podíamos suportar. Feridos de morte no início, passaremos o tempo
espreitando para os lados: quem agora vai me ferir, de onde virá o
próximo golpe, a próxima traição? Crescendo, amadurecendo e
envelhecendo: com que olhar nos contemplamos? Paramos eventualmente para
olhar e questionar?
Nossa maneira de ver e viver reflete - e repete - aquela com que fomos
vistos quando éramos somente reflexo no espelho, ou vamos formando uma
postura própria com todo o esforço e dor que isso possa exigir? Sendo
contraditórios, somamos hesitação e medo com audácia e fervor. Podemos
nos esconder no quarto escuro ou virar a cara para o sol, alternar as
duas posturas, gastar e consumir, amealhar e multiplicar. Somos tudo
isso. Nossa anistia ou nossa aniquilação. Não é só culpa dos outros se
ficamos truncados. Em cada estágio podemos colocar algum traço, algum
ponto, alguma cor no projeto de quem pretendemos ser. Podemos ser
obrigados a usar disfarces, mas no centro de nós mesmos ressoa o nome
que nos dermos: a nossa chancela.
Dentro, o Mar (parte final - Mar de Dentro)
mardedentro
13:55
Uma cavala de flancos intensos, patas rebeldes sem dono nem domação, rebentando espumas nesse galope, namora - mais do que o amor a morte.
Uma cavala dourada e sensual
com crinas de leite, talvez centaura:
buscando um nome, seguindo um pensamento, uma audácia e uma ausência.
Levando a memória como a cicatriz de um beijo no pescoço, à espreita e à espera: a desabalada cavala, na sua danação e sua glória.
O mar vai e vem, a onda se aproxima e retorna: minha
lembrança passeia por aqueles anos, espia a casa, o quarto, reconhece quem anda no corredor. Sente os aromas esabores da cozinha, mergulha em livros na biblioteca, observa a família repetida no espelho da sala quando comem e falam ao redor da mesa.
Depois sai para o jardim dos meus encantos, desce o caminho dos meus encontros, senta-se à beira do lago onde os peixes das horas aguardam que eu os apanhe, aceite ou jogue de volta, no trabalho de conferir sentido ao que vai sendo lembrado.
Qual é a história que eu aqui desejei contar?
De alegria e descoberta, de medo e segredo, de afetos. De uma criança assistindo ao que se revela quando alta noite a gente abre olhos assombrados. De uma criança que cantava e dançava no quarto pelo puro êxtase de viver.
Houve uma infância feliz e protegida, numa casa com jardim e um lago que nascia de um oculto olho d'água (que eu imaginava com íris de cor, pupila, pálpebras, e um abrir e fechar secretíssimo que outros não podiam ver).
Mas havia o embaixo dos móveis e o atrás das portas, havia a possibilidade de tudo não ser o que parecia. Havia sempre uma convocação para o risco e a surpresa. Tudo isso prendeu-se em mim como um quadro há tanto tempo na parede, que se o removerem ficará no reboco outro quadro, desenhado em poeira e teias, silêncio e sobressalto.
Este livro nasce da lembrança das pessoas e das coisas, das minhas conjeturas a respeito de tudo o que circulava entre elas - e do que se desenhava além desse universo.
Quem escreve resgata e recobra, inventa ou transfigura. Algo pode se perder se eu for minuciosa demais na tentativa de separar a menina da mulher: pois as duas igualmente me sustentam. É preciso andar com cuidado entre essas presenças, as que prosseguem comigo e as que foram-se apartando levadas pelo acaso, pela morte, pelo apagamento da memória.
Pois como o vento do mar não sabe que não existe mais o mar - e pode trazer rumor de ondas e odor de maresia a desertos onde tudo isso pairou há milhões de anos , também o passado não sabe que não existe mais a história vivida.
Nada se perderá do que foi vivido sofrido amado. A realidade não existe a não ser através do nosso olhar que a define.
Vinha devagar, ousado, mas esquivo. Começava e logo fugia de mim.
No início eu não via nada: só escutava no céu um rufar, um ruflar, um tatalar de vento - e algo viajava nele. Saí da cama, sentei-me no peitoril, e como os quartos ficavam no andar de cima podia ver ao longe. Abri e fechei portas enquanto todos dormiam, fui até o terraço: algo se preparava como uma celebração, nas lajes do pátio, nos canteiros de rosas, no gramado e na mata escura atrás de tudo isso.
Esfreguei os olhos para ver o que ali sobrevoava. Depois de tanta espera e tanta busca, ele enfim chegava - para mim, para mim. No ar, no céu, enorme anjo ou demônio dourado, aquele por quem esperei.
Desci as escadas descalça, mas dessa vez vi apenas o rastro de seu vôo baixo sobre o capim vazio.
De novo e de novo eu fui chamada, me invocava aquele que queria ser descrito. Fui seduzida pelo que precisava acontecer e ser narrado em páginas e páginas de um futuro ainda impreciso.
Fui convocada.
Antes mesmo de abrir os olhos, eu sabia:
Está chegando. Hoje vou ser informada, iniciada, hoje vou contemplar o invisível, hoje vou recitar o inenarrável, hoje eu vou.
Mais uma vez saí da cama, nem me vesti porque não havia calor nem frio: havia silêncio e lua, mistura de jardim e maresia, e cheiro de cavalo. Avancei sem temor pelo gramado. Além do que minha vista podia alcançar, eu já enxergava.
Um cavalo cor de mel quer voar no meu sonho - ou no meu jardim.
Sob a lua, por cima da relva imóvel, ele começa a existir: estica o dorso, move os flancos, levanta a cabeça e fareja no ar a presença de uma menina que enfrenta o milagre. Sua crina esvoaça no vento apenas anunciado, porque ainda não é a tempestade.
Aparecem devagar as duas asas. Primeiro somente lhes diviso a linha do encaixe nos flancos - depois se destacam e desabrocham.
Tiritando na sua própria novidade ele se desenha no vazio. O cavalo dourado brota do meu desejo: narinas nervosas, patas inquietas, é meu próprio coração que explode.
Num impulso forte ele bate as asas, primeiro ainda plantado na terra morna: hesitante.
Então começa a ventar mais, e ele se alça e sobe. O rufar das asas se mistura ao rumor do mar que não se vê, o mar impossível jaz a quilômetros e quilômetros dali, mas rumoreja aqui embaixo com água e conchas.
O vôo sossegado vai por cima dos canteiros, das árvores e dos telhados, e todo o resto pára: nem aves noturnas nem anjos ousam aparecer diante daquela majestade.
Só ele, o meu cavalo-anjo, volteia no céu. Faz rasantes sobre a terra. Em uma curva mais perto de mim, relincha. Sua respiração me comove. Ele suspira e arqueja.
Não vai longe. Não sai do território que estendo para ele com minha ansiedade e minhas alegrias, palavras e silêncios, no tempo sobreposto ao tempo natural.
Depois o vento enfim o leva, barco no mar perdido que há milhões de anos varria talvez este lugar.
Ele é a minha arte, vela, caravela no meu mar de dentro, e é também o fundo silencioso. Esse sentimento tão maior que eu, parte de mim que não me pertence, me define tanto.
Se eu lhe desse um nome, seria: Vidaminha.
Hoje sou adulta. Mas não se iludam: ainda saio da cama de madrugada para ver um cavalo em revoada no jardim quando venta.
Ele está em cada frase que escrevo.
Nesta mesma claridade de uma lua impossível aprisionada na tela do meu computador, nesta noite verdadeira ou falsa, nesta hora nenhuma é que as coisas acontecem. Quando desabam paredes e abrem-se portas em tantos corredores dando para outros salões e novas portas, a fantasia senta-se ao pé de mim desembaraçando os cabelos.
O meu é o reino das palavras: aqui tudo pode ser dito - a cada um cabe inventar os significados, interpretar as charadas, preencher os silêncios.
Este é o lugar do impalpável que a muitos incomoda: são os que fecham meus livros sem ler, sacodem a cabeça - e não entenderão.
Porque eu falo para os da minha raça: os que além de racionais são também ilógicos, os bem estabelecidos que amam o imprevisível, os que na margem concreta enxergam mais do que isso e não têm com quem o partilhar.
Por isso atuam nos palcos ou nos computadores ou nos ateliês, ou simplesmente vagam alertas por sua casa quando os outros ancoraram no sono.
Sentindo-se guerreira ou mendiga, insuficiente ou esplêndida, esta que escreve não sou eu, mas algo que transborda dos meus contornos como o mar transbordava de uma concha naquela mão, na infância dourada.
E minha alma, esse cavalo alado, inocente menina ou feiticeira perversa, fará deste novelo de caos e luz o seu porto de partida, num sopro desenrolando infinitamente o nome que é todos os nomes e é minha alegria: Vida minha vida minha vida minha...
Uma cavala dourada e sensual
com crinas de leite, talvez centaura:
buscando um nome, seguindo um pensamento, uma audácia e uma ausência.
Levando a memória como a cicatriz de um beijo no pescoço, à espreita e à espera: a desabalada cavala, na sua danação e sua glória.
O mar vai e vem, a onda se aproxima e retorna: minha
lembrança passeia por aqueles anos, espia a casa, o quarto, reconhece quem anda no corredor. Sente os aromas esabores da cozinha, mergulha em livros na biblioteca, observa a família repetida no espelho da sala quando comem e falam ao redor da mesa.
Depois sai para o jardim dos meus encantos, desce o caminho dos meus encontros, senta-se à beira do lago onde os peixes das horas aguardam que eu os apanhe, aceite ou jogue de volta, no trabalho de conferir sentido ao que vai sendo lembrado.
Qual é a história que eu aqui desejei contar?
De alegria e descoberta, de medo e segredo, de afetos. De uma criança assistindo ao que se revela quando alta noite a gente abre olhos assombrados. De uma criança que cantava e dançava no quarto pelo puro êxtase de viver.
Houve uma infância feliz e protegida, numa casa com jardim e um lago que nascia de um oculto olho d'água (que eu imaginava com íris de cor, pupila, pálpebras, e um abrir e fechar secretíssimo que outros não podiam ver).
Mas havia o embaixo dos móveis e o atrás das portas, havia a possibilidade de tudo não ser o que parecia. Havia sempre uma convocação para o risco e a surpresa. Tudo isso prendeu-se em mim como um quadro há tanto tempo na parede, que se o removerem ficará no reboco outro quadro, desenhado em poeira e teias, silêncio e sobressalto.
Este livro nasce da lembrança das pessoas e das coisas, das minhas conjeturas a respeito de tudo o que circulava entre elas - e do que se desenhava além desse universo.
Quem escreve resgata e recobra, inventa ou transfigura. Algo pode se perder se eu for minuciosa demais na tentativa de separar a menina da mulher: pois as duas igualmente me sustentam. É preciso andar com cuidado entre essas presenças, as que prosseguem comigo e as que foram-se apartando levadas pelo acaso, pela morte, pelo apagamento da memória.
Pois como o vento do mar não sabe que não existe mais o mar - e pode trazer rumor de ondas e odor de maresia a desertos onde tudo isso pairou há milhões de anos , também o passado não sabe que não existe mais a história vivida.
Nada se perderá do que foi vivido sofrido amado. A realidade não existe a não ser através do nosso olhar que a define.
Vinha devagar, ousado, mas esquivo. Começava e logo fugia de mim.
No início eu não via nada: só escutava no céu um rufar, um ruflar, um tatalar de vento - e algo viajava nele. Saí da cama, sentei-me no peitoril, e como os quartos ficavam no andar de cima podia ver ao longe. Abri e fechei portas enquanto todos dormiam, fui até o terraço: algo se preparava como uma celebração, nas lajes do pátio, nos canteiros de rosas, no gramado e na mata escura atrás de tudo isso.
Esfreguei os olhos para ver o que ali sobrevoava. Depois de tanta espera e tanta busca, ele enfim chegava - para mim, para mim. No ar, no céu, enorme anjo ou demônio dourado, aquele por quem esperei.
Desci as escadas descalça, mas dessa vez vi apenas o rastro de seu vôo baixo sobre o capim vazio.
De novo e de novo eu fui chamada, me invocava aquele que queria ser descrito. Fui seduzida pelo que precisava acontecer e ser narrado em páginas e páginas de um futuro ainda impreciso.
Fui convocada.
Antes mesmo de abrir os olhos, eu sabia:
Está chegando. Hoje vou ser informada, iniciada, hoje vou contemplar o invisível, hoje vou recitar o inenarrável, hoje eu vou.
Mais uma vez saí da cama, nem me vesti porque não havia calor nem frio: havia silêncio e lua, mistura de jardim e maresia, e cheiro de cavalo. Avancei sem temor pelo gramado. Além do que minha vista podia alcançar, eu já enxergava.
Um cavalo cor de mel quer voar no meu sonho - ou no meu jardim.
Sob a lua, por cima da relva imóvel, ele começa a existir: estica o dorso, move os flancos, levanta a cabeça e fareja no ar a presença de uma menina que enfrenta o milagre. Sua crina esvoaça no vento apenas anunciado, porque ainda não é a tempestade.
Aparecem devagar as duas asas. Primeiro somente lhes diviso a linha do encaixe nos flancos - depois se destacam e desabrocham.
Tiritando na sua própria novidade ele se desenha no vazio. O cavalo dourado brota do meu desejo: narinas nervosas, patas inquietas, é meu próprio coração que explode.
Num impulso forte ele bate as asas, primeiro ainda plantado na terra morna: hesitante.
Então começa a ventar mais, e ele se alça e sobe. O rufar das asas se mistura ao rumor do mar que não se vê, o mar impossível jaz a quilômetros e quilômetros dali, mas rumoreja aqui embaixo com água e conchas.
O vôo sossegado vai por cima dos canteiros, das árvores e dos telhados, e todo o resto pára: nem aves noturnas nem anjos ousam aparecer diante daquela majestade.
Só ele, o meu cavalo-anjo, volteia no céu. Faz rasantes sobre a terra. Em uma curva mais perto de mim, relincha. Sua respiração me comove. Ele suspira e arqueja.
Não vai longe. Não sai do território que estendo para ele com minha ansiedade e minhas alegrias, palavras e silêncios, no tempo sobreposto ao tempo natural.
Depois o vento enfim o leva, barco no mar perdido que há milhões de anos varria talvez este lugar.
Ele é a minha arte, vela, caravela no meu mar de dentro, e é também o fundo silencioso. Esse sentimento tão maior que eu, parte de mim que não me pertence, me define tanto.
Se eu lhe desse um nome, seria: Vidaminha.
Hoje sou adulta. Mas não se iludam: ainda saio da cama de madrugada para ver um cavalo em revoada no jardim quando venta.
Ele está em cada frase que escrevo.
Nesta mesma claridade de uma lua impossível aprisionada na tela do meu computador, nesta noite verdadeira ou falsa, nesta hora nenhuma é que as coisas acontecem. Quando desabam paredes e abrem-se portas em tantos corredores dando para outros salões e novas portas, a fantasia senta-se ao pé de mim desembaraçando os cabelos.
O meu é o reino das palavras: aqui tudo pode ser dito - a cada um cabe inventar os significados, interpretar as charadas, preencher os silêncios.
Este é o lugar do impalpável que a muitos incomoda: são os que fecham meus livros sem ler, sacodem a cabeça - e não entenderão.
Porque eu falo para os da minha raça: os que além de racionais são também ilógicos, os bem estabelecidos que amam o imprevisível, os que na margem concreta enxergam mais do que isso e não têm com quem o partilhar.
Por isso atuam nos palcos ou nos computadores ou nos ateliês, ou simplesmente vagam alertas por sua casa quando os outros ancoraram no sono.
Sentindo-se guerreira ou mendiga, insuficiente ou esplêndida, esta que escreve não sou eu, mas algo que transborda dos meus contornos como o mar transbordava de uma concha naquela mão, na infância dourada.
E minha alma, esse cavalo alado, inocente menina ou feiticeira perversa, fará deste novelo de caos e luz o seu porto de partida, num sopro desenrolando infinitamente o nome que é todos os nomes e é minha alegria: Vida minha vida minha vida minha...
FIM
Procurando o Tom - (Perdas & Ganhos)
perdaseganhos
12:55
Que livro é este? Talvez um complemento ao Rio do meio, de 1996. Escrito na mesma linha, retomando vários dos que são meus temas. Toda a minha obra é elíptica ou circular: tramas e personagens espiam aqui e ali com nova máscara. Fazem isso porque não se esgotaram em mim, ainda as vou narrando. Provavelmente assim continuarei até a última linha do derradeiro livro. Que livro é este, então? Eu não o chamaria de ensaios, porque o tom solene e a fundamentação teórica que o termo sugere não são jeito meu. Certamente não é romance nem ficção. Também não são ensinamentos - que não os tenho para dar. Como em muitos campos de atividade, surgem novos modos de trabalhar ou criar que precisam de novos nomes. Cada um dê a esta narrativa o nome que quiser. Para mim é aquela mesma fala no ouvido do leitor, que tanto me agrada e faço em romances ou poemas - um chamado para que ele venha pensar comigo. O que escrevo nasce de meu próprio amadurecimento, um trajeto de altos e baixos, pontos luminosos e zonas de sombra. Nesse curso entendi que a vida não tece apenas uma teia de perdas mas nos proporciona uma sucessão de ganhos. O equilíbrio da balança depende muito do que soubermos e quisermos enxergar.
Encontro um amigo, pianista consagrado, e conto que estou começando um livro, mas como sempre no início de um novo trabalho ainda estou buscando "o tom" certo. Ele acha graça, então escritor procura o tom? Rimos, porque acabamos descobrindo que os dois buscamos a mesma coisa: encontrar o nosso tom. O da nossa linguagem, da nossa arte, e - isso vale para qualquer pessoa - o tom da nossa vida. Em que tom a queremos viver? (Não perguntei como somos condenados a viver.) nEm meios-tons melancólicos, em tons mais claros, com pressa e superficialidade, ou alternando alegria e prazer com momentos profundos e reflexivos. Apenas correndo pela superfície ou de vez em quando mergulhando em águas profundas. Distraídos pelo barulho em torno ou escutando as vozes nas pausas e nos silêncios - a nossa voz, a voz do outro. Nosso tom será o de suspeita e desconfiança ou serão varandas abrindo para a paisagem além de qualquer limite? Parte disso depende de nós. No instrumento de nossa orquestração somos - junto com fatalidades, genética e acaso - os afinadores e os artistas. Somos, antes disso, construtores de nosso instrumento. O que torna a lida mais difícil, porém muito mais instigante. Sento-me aqui no computador e penso no tom deste livro, que preciso encontrar. Eu o sinto, neste momento inicial, um murmurar para o leitor: "Vem refletir comigo, vem me ajudar a indagar." Embora seja uma fala íntima, este pode par1ecer em certos momentos um livro cruel: digo que somos importantes, e bons, e capazes, mas também digo que somos tantas vezes fúteis, que somos medíocres demasiadas vezes. Digo que poderíamos ser muito mais felizes do que geralmente nos permitimos ser, mas temos medo dos preços a pagar. Somos covardes. Mas há de ser um livro esperançoso: sou dos que acreditam que a felicidade é possível, que o amor é possível, que não existe só desencontro e traição, mas ternura, amizade, compaixão, ética e delicadeza. Penso que no curso de nossa existência precisamos aprender essa desacreditada coisa chamada "ser feliz". (Vejo sobrancelhas arqueando-se ironicamente diante dessa minha romântica afirmação.) Cada um em seu caminho e com suas singularidades. Na arte como nas relações humanas, que incluem os diversos laços amorosos, nadamos contra a correnteza. Tentamos o impossível: a fusão total não existe, o partilhamento completo é inexeqüível. O essencial nem pode ser compartilhado: é descoberta e susto, glória ou danação de cada um -solitariamente. Porém numa conversa ou num silêncio, num olhar, num gesto de amor como numa obra de arte, pode-se abrir uma fresta. Espiarão juntos, artista e seu espectador ou seu leitor - como dois amantes. E assim, rasgando joelhos e mãos, a gente afinal vai. Por isso escrevo e escreverei: para instigar
o meu leitor imaginário -substituto dos amigos imaginários da infância? - a buscar em si e compartir comigo tantas inquietações quanto ao que estamos fazendo com o tempo que nos é dado. Pois viver deveria ser - até o último pensamento e o derradeiro olhar - transformar-se. O que escrevo aqui não são simples devaneios. Sou uma mulher do meu tempo, e dele quero dar testemunho do jeito que posso: soltando minhas fantasias ou escrevendo sobre dor e perplexidade, contradição e grandeza; sobre doença e morte. Lamentando a palavra na hora errada e o silêncio na hora em que teria sido melhor falar. Escrevo continuamente sobre sermos responsáveis e inocentes em relação ao que nos acontece. Somos autores de boa parte de nossas escolhas e omissões, audácia ou acomodação, nossa esperança e fraternidade ou nossa desconfiança. Sobretudo, devemos resolver como empregamos e saboreamos nosso tempo, que é afinal sempre o tempo presente. Mas somos inocentes das fatalidades e dos acasos brutais que nos roubam amores, pessoas, saúde, emprego, segurança, ideais. De modo que minha perspectiva do ser humano, de mim mesma, é tão contraditória quanto, instigantemente, somos.
Somos transição, somos processo. E isso nos perturba. O fluxo de dias e anos, décadas, serve para crescer e acumular, não só perder e limitar. Dessa perspectiva nos tornaremos senhores, não servos. Pessoas, não pequenos animais atordoados que correm sem saber ao certo por quê. Se meu leitor e eu acertarmos nosso tom recíproco, este monólogo inicial será um diálogo - ainda que eu jamais venha a contemplar o rosto do outro que afinal se torna parte de mim. Então a minha arte terá atingido algum tipo de objetivo.
Encontro um amigo, pianista consagrado, e conto que estou começando um livro, mas como sempre no início de um novo trabalho ainda estou buscando "o tom" certo. Ele acha graça, então escritor procura o tom? Rimos, porque acabamos descobrindo que os dois buscamos a mesma coisa: encontrar o nosso tom. O da nossa linguagem, da nossa arte, e - isso vale para qualquer pessoa - o tom da nossa vida. Em que tom a queremos viver? (Não perguntei como somos condenados a viver.) nEm meios-tons melancólicos, em tons mais claros, com pressa e superficialidade, ou alternando alegria e prazer com momentos profundos e reflexivos. Apenas correndo pela superfície ou de vez em quando mergulhando em águas profundas. Distraídos pelo barulho em torno ou escutando as vozes nas pausas e nos silêncios - a nossa voz, a voz do outro. Nosso tom será o de suspeita e desconfiança ou serão varandas abrindo para a paisagem além de qualquer limite? Parte disso depende de nós. No instrumento de nossa orquestração somos - junto com fatalidades, genética e acaso - os afinadores e os artistas. Somos, antes disso, construtores de nosso instrumento. O que torna a lida mais difícil, porém muito mais instigante. Sento-me aqui no computador e penso no tom deste livro, que preciso encontrar. Eu o sinto, neste momento inicial, um murmurar para o leitor: "Vem refletir comigo, vem me ajudar a indagar." Embora seja uma fala íntima, este pode par1ecer em certos momentos um livro cruel: digo que somos importantes, e bons, e capazes, mas também digo que somos tantas vezes fúteis, que somos medíocres demasiadas vezes. Digo que poderíamos ser muito mais felizes do que geralmente nos permitimos ser, mas temos medo dos preços a pagar. Somos covardes. Mas há de ser um livro esperançoso: sou dos que acreditam que a felicidade é possível, que o amor é possível, que não existe só desencontro e traição, mas ternura, amizade, compaixão, ética e delicadeza. Penso que no curso de nossa existência precisamos aprender essa desacreditada coisa chamada "ser feliz". (Vejo sobrancelhas arqueando-se ironicamente diante dessa minha romântica afirmação.) Cada um em seu caminho e com suas singularidades. Na arte como nas relações humanas, que incluem os diversos laços amorosos, nadamos contra a correnteza. Tentamos o impossível: a fusão total não existe, o partilhamento completo é inexeqüível. O essencial nem pode ser compartilhado: é descoberta e susto, glória ou danação de cada um -solitariamente. Porém numa conversa ou num silêncio, num olhar, num gesto de amor como numa obra de arte, pode-se abrir uma fresta. Espiarão juntos, artista e seu espectador ou seu leitor - como dois amantes. E assim, rasgando joelhos e mãos, a gente afinal vai. Por isso escrevo e escreverei: para instigar
o meu leitor imaginário -substituto dos amigos imaginários da infância? - a buscar em si e compartir comigo tantas inquietações quanto ao que estamos fazendo com o tempo que nos é dado. Pois viver deveria ser - até o último pensamento e o derradeiro olhar - transformar-se. O que escrevo aqui não são simples devaneios. Sou uma mulher do meu tempo, e dele quero dar testemunho do jeito que posso: soltando minhas fantasias ou escrevendo sobre dor e perplexidade, contradição e grandeza; sobre doença e morte. Lamentando a palavra na hora errada e o silêncio na hora em que teria sido melhor falar. Escrevo continuamente sobre sermos responsáveis e inocentes em relação ao que nos acontece. Somos autores de boa parte de nossas escolhas e omissões, audácia ou acomodação, nossa esperança e fraternidade ou nossa desconfiança. Sobretudo, devemos resolver como empregamos e saboreamos nosso tempo, que é afinal sempre o tempo presente. Mas somos inocentes das fatalidades e dos acasos brutais que nos roubam amores, pessoas, saúde, emprego, segurança, ideais. De modo que minha perspectiva do ser humano, de mim mesma, é tão contraditória quanto, instigantemente, somos.
Somos transição, somos processo. E isso nos perturba. O fluxo de dias e anos, décadas, serve para crescer e acumular, não só perder e limitar. Dessa perspectiva nos tornaremos senhores, não servos. Pessoas, não pequenos animais atordoados que correm sem saber ao certo por quê. Se meu leitor e eu acertarmos nosso tom recíproco, este monólogo inicial será um diálogo - ainda que eu jamais venha a contemplar o rosto do outro que afinal se torna parte de mim. Então a minha arte terá atingido algum tipo de objetivo.